Ironia das ironias

Com fina ironia, nos últimos 30 anos instalou-se uma espécie de cultura do medo e da ameaça no futebol português.


 


Há jornalistas ameaçados, chantageados, agredidos e humilhados. Confessam-no em privado, negam-no em público. Há árbitros vendidos, impunemente comprados, escutados a pedir favores em troca de favores e que ficam, convenientemente, calados numa teia de dependências habilmente montada. Há juízes que se julgam à margem da lei e que, com fina ironia, riem da beca que envergam e envergonham.


 


Há políticos que recebem ameaças à democracia na casa da democracia e que, ironicamente, mais do que prestigiar o convidado desprestigiam a missão que lhes foi dada pelo povo. E em nome do povo ajoelham e beijam a mão a quem escarnece da justiça num Estado de direito. Tudo isto servido com ironia mais ou menos fina consoante a ocasião. E todos sabemos que a ocasião faz o ladrão (sem ironias).


 


Há quem tema opinar sem amarras e livremente criticar e questionar. Há quem aceite a canga do medo e, em nome da necessidade, queira amordaçar a verdade que um dia será gritada.


 


Quando se fizer a autópsia do futebol português dos últimos anos, encontrar-se-á uma ficção feita de fina ironia e de medo. Ainda assim, restam-me duas certezas: a de que o benfiquismo não aceita hoje, como nunca aceitou, cangas e mordaças; e a certeza de que todos os que viveram a meter medo acabaram, ironicamente, a meter dó.


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Artigo de opinião publicado também na edição de 14/01/2011 do jornal "O Benfica".


 


[Se alguém quiser manifestar-me a sua opinião, pode fazê-lo para este endereço: tertuliabenfiquista@gmail.com]

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