Antes de encerrar definitivamente a questão sobre as contas do Grupo Benfica (e não apenas de algumas entidades do Grupo), gostava apenas de deixar aqui bem claro (caso não tenha ficado) que não mudo uma vírgula (ou letra) à argumentação sobre as questões financeiras que consta do meu post anterior (e quanto ao tom, percebo agora que é o adequado e não mudo rigorosamente nada. Como tive oportunidade de transmitir, tem a ver com a forma apaixonada como vivo a defesa do Benfica: como uma Águia que protege o seu Ninho). As coisas são como são e o que lá está é como as coisas são. Tão somente. Como também já tive oportunidade de transmitir, tenho formação financeira, conhecimento de causa e o meu currículo não me deixa ficar mal na fotografia (até porque sou um tipo bem apessoado – deixem-me ficar com esta ilusão).
Para terminar gostaria apenas de deixar algumas considerações:
Provisões
Sobre as provisões para riscos e encargos penso que fui particularmente claro quando expliquei para que é que servem, porque é que não são provisões para risco de crédito e porque é que acho que não devem ser ‘reservas ocultas’ nem ter influência directa na evolução e sustentabilidade dos resultados. São provisões para fazer face a riscos potenciais de situações específicas identificadas (disputas legais, reestruturações projectadas, etc). Quando os factos que justificaram a sua constituição desaparecem, as provisões são anuladas.
Em circunstância alguma mencionei que os proveitos da Benfica SAD não tinham decrescido. Dizer o contrário seria ridículo. É particularmente óbvio, está escarrapachado nas contas, estão lá inclusivamente enumeradas as razões. Entre as quais que se trata de um exercício apenas com 11 meses, o que me parece ser um pormenor particularmente importante. Num exercício rudimentar, poder-se-iam anualizar os proveitos operacionais, atingindo uma base comparável para 2007/2008 (friso o carácter académico do exercício, porque a distribuição dos proveitos não será homogénea pelos meses), e aí a variação seria apenas de 7,75% para uma época de insucesso desportivo.
O que me pareceu abusivo foi a ideia que o Benfica teria tentado ocultar o decréscimo dos proveitos e embelezar os resultados com as reservas para riscos e encargos. Não só por força da natureza das mesmas, como expliquei, mas também porque está perfeitamente escarrapachado nos Relatórios como é que as receitas variaram e porquê.
O Benfica (Grupo) é hoje, e após um esforço a todos os títulos exemplar das direcções desde Vilarinho, uma entidade num caminho rigoroso face ao equilíbrio, com uma percentagem substancial de receitas estáveis e diversificadas, sem a mínima necessidade de vender jogadores para sobreviver ou cumprir orçamentos, ao invés de outros clubes que se auto-proclamaram de ‘diferentes’ e ‘rigorosos’ ad nauseam e que precisam quase diariamente de recorrer a empréstimos e a favores para pagar as contas de electricidade e afins.
Como já aqui escrevi há uns tempos:
'(…) O Benfica possui um património a todos os títulos admirável (entre o Estádio, pavilhões que mais nenhum clube possui, Centros de Estágio construídos sem favores) e possui uma estratégia clara e bem definida. É o maior clube do Mundo em número de sócios, produto de um admirável esforço dos responsáveis no sentido de aproveitar o gigantesco potencial humano do clube. O Benfica finalmente, e após anos em que vagueou sem rumo, está no caminho da plena exploração do gigantesco potencial da sua marca e o cumprimento de apenas uma parte da estratégia já permitiu inclusivamente a entrada no Top 20 dos clubes com maiores receitas a nível mundial. É apenas o início.’
Quer isso dizer que está tudo bem, é tudo uma maravilha, e que as finanças do clube estão equilibradas? Não. Quer dizer que se soubermos ler da forma que acho adequada a informação e o que aconteceu nos últimos anos, percebemos que estamos no caminho certo.
Passivo
Como é fácil verificar, não disse em circunstância alguma que o Grupo Benfica estava equilibrado financeiramente. O que eu disse, e para mim é particularmente claro, é que não faz sentido fazer qualquer tipo de juízo sobre o conforto financeiro com base no valor absoluto do Passivo. Esgrimir o passivo per se é absolutamente inconclusivo. Esgrimir o passivo e compará-lo com os valores de outros ‘Grupos’ empresariais de clubes de futebol sem se ter a certeza da comparabilidade do que se está a comparar e com base em valores que saem na imprensa (que não sabe identificar o que está incluído em cada um dos agregados e que faz sistematicamente análises viciadas e tendenciosas) também não me parece correcto. Até porque comparar passivos absolutos não faz sentido, que foi exactamente o que tentei ilustrar com a questão da General Electric. Só faz sentido comparar agregados relativos e rácios dos Grupos. Mas compará-los com tudo incluído (o que é difícil porque os outros não consolidam todas as empresas onde têm dívida) e confirmar os valores, em vez de se confiar no que sai nos jornais. Especialmente nos controlados por quem controla a Olivedesportos. Objectivamente, é muito difícil comparar os dados disponíveis dos clubes. Como disse, as contas do Clube Regional do Porto e do Sportem não incluem todo o seu universo, dado que há dívida que está noutras entidades e que não é apanhada nestes exercícios comparativos feitos em cima do joelho pela imprensa.
Mas pode-se, mais uma vez, fazer exercícios académicos.
A título exemplificativo e tendo em conta os Relatórios e Contas de 2006/07 (últimos disponíveis para todos) consolidados do Grupo Benfica e os elementos disponíveis dos ‘Grupos’ do Clube Regional do Porto e do Sportem (estes dois últimos apenas incluindo o que eles bem entendem), consegue-se perceber que, na altura, o Passivo Total do Grupo Benfica (tudo incluído) seria da ordem dos EUR 305 milhões, o do Grupo Benfica sem a Benfica Estádio de cerca de EUR 242 milhões, o do ‘Grupo’ Sportem de EUR 358 milhões e o do Clube Regional do Porto de EUR 148,5 milhões. O passivo remunerado do Grupo Benfica seria de cerca de EUR 167 milhões, o do Grupo Benfica sem o Estádio de cerca de EUR 124 milhões, o do ‘Grupo’ Sportem de cerca de EUR 238 milhões e do ‘Grupo’ do Clube Regional de cerca de EUR 97 milhões. Registe-se que o EBITDA (Cash flow Operacional) do Benfica era de EUR 28 milhões (de EUR 15 milhões sem a Benfica Estádio), o do Sportem era de EUR 9 milhões e o do Clube Regional de EUR 3 milhões.
Tendo presente que os agregados do Clube Regional e do Sportem não incluem uma série de entidades (especificamente as empresas que detêm e gerem os estádios), mencionei também os agregados do Grupo Benfica sem a Benfica Estádio, para a coisa ser ligeiramente mais comparável.
Registe-se, como curiosidade, que o Passivo Total do Grupo Sportem, face ao que tem sido publicamente admitido pelos seus responsáveis (foi admitido há sensivelmente 2 anos que era de EUR 400 milhões) será actualmente da ordem dos EUR 450 milhões e o Passivo Exigível da ordem dos EUR 235 milhões. Bonito, não é?
A este nível, volto aqui a frisar que há muito e bom blog benfiquista que faz excelentes análises neste aspecto e que são incansáveis na defesa da verdade face ao que sai na imprensa (ver www.forumbenfica.blogspot.com, para quem vai uma palavra de apreço). Adicionalmente, é público que os capitais próprios da SAD estão abaixo do exigível. Isso também está escarrapachado nas contas e na opinião da KPMG, que menciona exactamente o artigo 35º. do Código das Sociedades Comerciais. É do conhecimento de todos a pesada herança de resultados transitados negativos que se herdou da era Vale e Azevedo, e que tem vindo a ser esbatida graças ao caminho de equilíbrio que se está a percorrer. Como é óbvio, isso não se faz de um momento para o outro e as contas reflectem-no. Registe-se também que a situação relativa ao artigo 35º será resolvida com o aumento de capital na SAD através da entrada em espécie das acções detidas na Benfica Estádio e posterior fusão (não, isso não melhora, em substância a situação dos capitais próprios do Grupo, mas resolve a questão formal).
Em abono da verdade, os capitais próprios do Grupo Benfica como um todo são ainda negativos, dado que as contas do Clube também registam Resultados transitados negativos (mais uma herança). A esse nível, registe-se que, só para se ter uma ideia, que os capitais próprios do ‘Grupo’ Sportem em 2006/07 eram bastante mais negativos (quase 3 vezes mais que o Benfica), e isto apenas com algumas das entidades do grupo colocadas nas contas (ao invés do Benfica, que inclui todo o universo empresarial).
O que importa é que o motor económico do Benfica foi posto a funcionar como deve ser (é evidente a evolução da situação operacional ao longo dos últimos anos e o seu equilíbrio crescente), a estrutura de capitais estabilizada e o passivo remunerado completamente controlado. É manter o caminho e atingir-se-á o equilíbrio financeiro na estrutura de capitais.
Auditorias e qualidade da informação financeira
Muito honestamente, não faz o mínimo sentido, para demonstrar como há coisas que escapam às auditorias até das maiores empresas a nível mundial e extrapolar isso para a relação Benfica/KPMG, utilizar o argumento das falências de bancos a nível internacional e a relação com as empresas de auditoria associadas. A situação da banca tem muito especificamente a ver com a gestão descuidada por parte de management mais aventureiro na busca de produtos mais arriscados (e, logo, com yields mais atractivas) para maximizar as receitas, sem ter em conta a devida gestão do risco. E isto não pode aparecer nos relatórios de KPMGs e PwCs e afins, porque não faz parte das suas atribuições tecer juízos sobre a gestão comercial e corrente das entidades que auditam, mas sim sobre a ‘bondade’ da sua informação económico-financeira e sobre os procedimentos contabilísticos e de controlo interno. As auditoras não são reguladoras da actividade da banca, nem são ‘polícias’ da sua gestão, muito menos a nível comercial. São ‘polícias’ da clareza, objectividade, licitude, fiabilidade e rigor das contas e notas associadas de uma entidade, seus resultados, fluxos de caixa e variações nos capitais próprios de acordo com as Normas Internacionais de Relato Financeiro.
Nenhum dos casos relativos a falências e dificuldades de instituições financeiras internacionais tem a ver com manipulação de contas ou ‘embelezamento’ das mesmas. Tem a ver com gestão irresponsável e menosprezo pela função do risco (e desequilíbrio no trade off remuneração/risco de crédito), e com o crescente desequilíbrio da sua actividade de crédito (a favor de produtos de maior risco) consubstanciada na crescente importância de produtos de crédito derivados e estruturados de maior complexidade.
O que as empresas de auditoria fazem não é fiscalizar a estratégia de gestão das empresas mas sim avaliar a qualidade das contas (e políticas contabilísticas e de controlo interno) enquanto representação verdadeira e apropriada da posição financeira de uma entidade. E aí sim, as empresas de auditoria podem concluir sobre a existência de manobras de manipulação das contas. Nesse aspecto, antes ter uma das Big Four (uma delas consta, aliás, do meu currículo) como auditora do que qualquer outra empresa.
As contas da Benfica SAD que são mencionadas não apresentam nenhum reparo relativo a vícios na informação financeira. Apresentam, unicamente, como ênfase, a menção à questão do capital associado ao artigo 35º. Aliás, como já referi, a fusão entre a SAD e a Benfica Estádio vai permitir sanar rapidamente esta questão. O que não quer dizer que a autonomia financeira do grupo tenha uma cura milagrosa, nada disso. Apenas que se fica a cumprir o referido artigo na SAD.
E pronto, era mais ou menos isto.
Trata-se de questões que achei importante esclarecer antes de deixarmos o assunto, até porque podem induzir as pessoas em erro, dada a forma irresponsável e pouco inteligente como foram tratadas.
Posto isto, adiante. Este ano acho honestamente que estamos no caminho certo e é claramente mais útil unirmo-nos para fazer face a tudo que se adivinha que aí vem para tentar desestabilizar o Glorioso (incluindo quem se tenta fazer passar por benfiquista sob falsos pretextos).
Há para aí muito bom post à espera de ser escrito sobre a actualidade deste circo recheado de ursos, palhaços e pseudo-benfiquistas que é o futebol português.
Força BENFICA!
p.s.1 Aos habituais frequentadores do estaminé: não temam. Não fiz uma lobotomia frontal. O ‘tom’ normal dos meus posts voltará assim que for retomada a emissão.
p.s.2 Acordem.
Comentários
Eu ja tinha pensado escrever um post sobre as verdadeiras funcoes das empresas de auditoria, que nao tem rigorosamente nada a ver com o facto, como tu muito bem dizes, de as empresas financeiras e outras, terem ido, ou estar em risco de ir, a falencia. Ainda bem, porque tens mais experiencia e sabes bastante mais nessa area do que eu. Um bem haja.
Quanto ao "nosso amigo" do Porto, e caso para dizer: "quem te mandou a ti, sapateiro, tocar rabecao?".
Saudacoes Benfiquistas.
Agora acabe lá com essa "guerrinha" com o sr. Director da Porto TV, não vê que é isso que ele quer protagonismo, ver benfiquistas contra benfiquistas num momento em que o clube está unido em torno do presidente, do nosso Rui e do Quique. Essa história já é velha e foi isso que fez com o clube da cidade desse canal seja hoje o que é.
Deixe lá o Sr. B Carvalho ser feliz pensando que faz muita mossa nos benfiquistas pois será que algum lhe dá algum crédito? É só patético mais nada nem qualquer Jaime Antunes lhe chega aos calcanhares da parvoiçe. Deixe-o escrever lá para Maio respondere-mos.
Mais uma vez parabéns. Viva o genuino SPORT LISBOA E BENFICA
Saudações Benfiquistas
Caro 'O Glorioso',
não há guerrinha nenhuma com ninguém. Trata-se de um post dirigido à Nação Benfiquista, caso alguma alma que a compõe ache útil.
Abraço benfiquista
Marreta,
estamos mal...julgava que ironia era comigo.
Vai ao próximo jantar dos bloguiquistas. Levas uma imperial e já vais com sorte.
Mais um brilhante post.
Por acaso no blog "forum benfica" já tinham sido esclarecidos os "devaneios" de determinada pessoa. Agradecemos mais uma vez a simpática referência.
"Eles" bem tentam, desde há muito tempo, descredibilizar um dos maiores feitos de Luis Filipe Vieira (Gestão Empresarial), mas vão ter pouca sorte ;)
Abraço
Infelizmente, ha muita gente que se recusa aprender o que quer que seja.Resultado: cai de maduro.
O pior e que mesmo quebrando a cabeca a coisa nao entra.
Obrigado pela aula e, sobretudo, visando a defesa do GLORIOSO.
E agora o que importa é ganhar ao porco c no Domingo em Coimbra...!!!
Saudações Benfiquistas
PS- o porco b é o Braguinha do salvador
E, ainda por cima, na mesma peça enaltecer a gestão por objectivos do clube dos andrades corruptos em contraste com a nossa.
Será que não há alguém que possa perder um pouco de tempo e ensinar algumas coisas a esse Camelo Lourenço?
Sou de um clube lutador
Saudações Benfiquistas
De resto, sem dúvida que o futebol português e diversas figurinhas que parasitam À custa dele são um manancial inesgotável para quem gosta de fazer humor. A realidade chega a ser mais bizarra que a pura ficção, chegando a faz inveja aos Monty Python...
Mas no fim de contas, a vontade de rir acaba por não ser muita...
PS: Devias escrever um livro "Benfica's Report and Accounts in a nutshell"!
PPS: Não existe nenhuma guerra de blogs
Estou farto de falar em muitas das coisas deste post em conversas de café e continuar a ouvir argumentos completamente falaciosos principalmente de corruptos e lagartos...
Ja li o relatório de 2007/2008 de principio a fim para tentar explicar o inexplicavel para quem nao tem formação nesta área. Mas tento! Não suporto ouvir disparates.
Sou Auditor Senior numa concorrente da KPMG...