Normalidade
Depois do resultado da primeira mão ter resultado em reacções desmesuradas - as descrições incluiram termos como 'hecatombe', 'descalabro', 'desastroso' - foi bom ver o Benfica estrear-se em casa esta época com uma goleada que corrigiu o resultado da primeira mão e repor alguma normalidade, deixando-nos a perguntar como foi possível conseguirmos ter perdido um jogo contra esta equipa.
Duas alterações no onze, que foram a troca de dois médios: Barreiro e Barrenechea em vez de Manu e Figueiredo. O início do jogo até nem foi particularmente promissor. Aliás, toda a primeira parte não foi exactamente uma exibição de encher o olho. Os nossos jogadores pareceram quase sempre nervosos e com dificuldades em controlar a bola eficazmente. Os suíços não vieram remeter-se á defesa e tentaram aplicar a fórmula da primeira mão, com pressão individual em todo o campo, o que expôs muito a nossa saída de bola. Esta era feita de forma lenta e a maior parte das vezes ficava toda a gente estática e sem dar linhas de passe ao portador da bola, pelo que esta acabava por regressar muitas vezes ao guarda-redes. Mas pelo menos conseguimos o mais importante, que foi marcar primeiro e fazê-lo numa fase inicial do jogo. Ao onze minutos, o Bah desmarcou o Rafa atrás da linha de defesa suíça pela direita, com um lançamento de linha lateral, e este tocou para o Pavlidis mais na zona central finalizar. A eliminatória ficava logo empatada, e pela reacção corporal dos jogadores suíços percebeu-se que isso foi um duro golpe na sua confiança. O Benfica melhorou após o golo e passou a dominar o jogo de forma evidente, dispondo de algumas boas ocasiões para se colocar na frente da eliminatória, que foram sendo negadas pelo guarda-redes ou por má finalização. O St.Gallen apenas teve uma ocasião de verdadeiro perigo, pelo Baldé, que tal como na primeira mão tentou surpreender o Trubin com um remate forte de ângulo apertado que desta vez esbarrou no poste.
Na segunda parte o domínio do Benfica foi ainda mais claro. Houve mais envolvimento ofensivo por parte dos laterais e até mesmo do António Silva, o Kaminski e o Sudakov apareceram mais no jogo, e os suíços ficaram limitados a resistir às investidas do Benfica, que ia criando ocasiões de perigo praticamente em cada aproximação à baliza. Foram necessários apenas dez minutos para que o segundo golo chegasse, e chegou logo a seguir a uma jogada em que o guarda-redes tinha negado uma oportunidade flagrante ao Barreiro. Desta vez nada conseguiu fazer perante o Pavlidis, que depois de uma boa combinação na zona central com o Kaminski lhe apareceu na área isolado para finalizar de pé esquerdo. No reatar do jogo, o St.Gallen ficou reduzido a dez depois de um defesa derrubar deliberadamente o Sudakov numa transição muito promissora, vendo o segundo amarelo, e toda a gente percebeu que o jogo seria apenas uma questão de ver quantos golos conseguiria marcar o Benfica. O terceiro, que foi o hat trick do Pavlidis, chegou aos sessenta e seis minutos e ao retardador. Boa jogada do Rafa, que desmarcou o Bah na área, e este à terceira tentativa lá conseguiu assistir o grego. As duas primeiras tentativas foram sempre cortadas por defesas, que no entanto cortaram sempre a bola na sua direcção, e ele sobre a linha de fundo continuou a colocar a bola na zona frontal. O golo foi inicialmente invalidado por fora-de-jogo, mas o VAR acabou por confirmá-lo. Com a vitória confirmada, começámos a assistir ao regresso de alguns dos mundialistas e o primeiro a entrar foi o Ríos, que pouco depois de estar em campo fugiu pela direita aproveitando um passe longo do António Silva e foi derrubado para penálti. O Pavlidis converteu para o seu poker. Já com mais três mundialistas em campo (Schjelderup, Lukebakio e Dedic) e ainda o Durán, o Benfica fechou o resultado aos oitenta e um minutos com um golo do Lenglet, após centro do Lukebakio num canto marcado à maneira curta. Os minutos finais foram de algum relaxamento excessivo por parte do Benfica, o que até permitiu ao St.Gallen voltar a aproximar-se da nossa baliza com algum perigo.
Com quatro golos, obviamente que o Pavlidis foi o homem do jogo. Para além dele, destaco o grande jogo de despedida do António Silva - quando ele decidiu começar a subir com a bola nos pés, face à falta de movimentações dos colegas para oferecer linhas de passe na nossa saída de bola, passou a causar muitos problemas ao adversário. Ganhou praticamente todos os lances, esteve muito bem no passe e até esteve muito perto de marcar. Tenho pena de o ver sair, porque para mim é apenas mais um a sofrer o habitual desdém pela prata da casa. Depois de se ter estreado na equipa principal de forma fulgurante, achei que houve uma campanha bastante forte para o desacreditar, empolando sempre o menor erro que cometesse e desvalorizando qualquer contribuição positiva. E o pior foi que os próprios benfiquistas embarcaram nisso - o Otamendi andou anos ao lado dele a cometer erros grotescos que nos custaram jogos, mas andámos a suspirar que ele renovasse aos 38 anos. Espero que tenha sucesso na nova etapa, porque o merece. Voltei a gostar do Rafa, mesmo continuando remetido a uma ala, onde rende menos.
Assim como achei completamente desajustada a reacção a uma derrota pela margem mínima de uma equipa que tinha um novo treinador com três semanas de trabalho e oito jogadores indisponíveis, também não vou ficar eufórico pela goleada conseguida uma semana depois. Não fizemos muito mais do que aquilo que era esperado do Benfica. Fico satisfeito por vermos progresso e tenho muita confiança no trabalho do Marco Silva. Ele tem o problema de precisar de tempo, como toda a gente, mas sabemos que no Benfica nunca há tempo para nada. As citadas reacções descabidas ao resultado da semana passada mostraram a quantidade de facas afiadas e de gente a que existe a salivar por um insucesso do Benfica.



Comentários
Não é que eu seja particularmente fã dos substitutos, mas dada a chegada recente dos mundialistas não havia muitas opções, e os efeitos das duas trocas fizeram-se sentir rápidamente. Até o Sudakov, que tem deixado bastante a desejar neste início de época, acabou por ter um rendimento bastante razoável.
Após um primeiro quarto de hora inseguro, a equipa estabilizou com o primeiro golo e embalou para uma vitória sem margem para discussões, facilitada é certo por alguns erros infantis dos suiços.
Não é jogo que justifique uma analíse aprofundada, dada a diferença de qualidade entre as duas equipas, mas a nível individual vale a pena destacar o Pavlidis pela positiva e pela negativa o nervosismo do Trubin, que está claramente consciente de que é para alguns adeptos a nova ovelha negra, como era até agora o António Silva.
Falando do António, também eu tenho pena de que ele não fique no Benfica. Não é um novo Ruben Dias, como se chegou a pensar, mas também não é outro Ferro. É um bom jogador que se cansou de ser apontado sistemáticamente como bode expiatório quando as coisas corriam mal, e é de lamentar que saia por esta razão.
Na mesma linha, queria destacar uma exibição que foi positiva (sobretudo pela segunda parte) de um jogador que estava já a ser alvo de críticas violentas ao fim de apenas um jogo oficial pelo Benfica, o Kaminski. O rapaz acabou de chegar, eu pessoalmente não faço ideia de se é bom ou mau futebolista, nem se serve para o Benfica ou não, mas o que é inaceitável é que já haja adeptos a chamar-lhe flop ainda mal saiu do avião. Haja juízo, por favor.
Haja cérebro.