Adiada
Evitámos a derrota quase no último suspiro, mas a questão do título acabou adiada para a última jornada. Num jogo de duas partes distintas oferecemos literalmente a primeira ao adversário para depois recuperar na segunda, mas a má primeira parte nem sequer se pode considerar muito surpreendente tendo em conta as opções tomadas. E isto não se trata de menosprezar aquilo que o Sporting fez na primeira parte, simplesmente era escusado facilitar-lhes tanto a vida.

Ao Benfica bastaria uma vitória para arrumar de vez com a discussão do título, mas já estava eu em Alvalade (com uma assistência baixa para um jogo destes - parece-me que muitos dos adeptos do Sporting ficaram com receio de que o Benfica pudesse lá festejar) quando soube que a equipa iria ser, como aliás era previsível, a mesma dos últimos jogos. Não era preciso ser um mestre da táctica para adivinhar o que era mais provável de acontecer. Com um meio campo constituído pelo Chiquinho e o João Neves, o Sporting ganhou claramente essa luta, o que lhe permitiu pressionar muito alto a nossa saída de bola. O João Mário, a exemplo daquilo que tem sido nos últimos dois ou três meses, parece completamente esgotado mas vai mantendo a titularidade, o que na prática equivale a jogarmos com menos um. Também sem surpresa, foi precisamente por esse lado que o Sporting mais insistiu. O Aursnes, remetido para lateral direito, passou a primeira parte toda a levar com o Trincão, o Nuno Santos, o Pedro Gonçalves e até mesmo o Morita em cima (que o Ugarte sozinho dava conta do recado no meio) com muito pouca ajuda, e portanto também pouco ou nada podia contribuir no ataque. O nosso jogo não teve qualquer tipo de profundidade e as bolas eram quase todas perdidas no meio campo, permitindo ao adversário ataques continuados e muito mais posse de bola. Para além do referido João Mário, todos os elementos do ataque - Rafa, Gonçalo Ramos, Neres - estiveram muitíssimo apagados, embora se compreenda que com tão pouca bola pouco mais pudessem fazer. No meio campo o Chiquinho foi completamente engolido e o João Neves, também fruto da pressão a que era imediatamente submetido, falhava muito mais passes do que é normal. Acho que surpresa só foi mesmo o Sporting ter demorado quase quarenta minutos a chegar ao golo, que surgiu como resultado de um erro de um dos jogadores mais regulares esta época. A jogada nasceu do lado esquerdo (obviamente) e um corte falhado do António Silva permitiu que a bola passada pelo Nuno Santos chegasse ao Trincão, que no meio dos nossos centrais conseguiu desviar a bola e obrigar o Vlachodimos a uma defesa de recurso. Não conseguiu agarrar a bola e ela ficou solta para que o mesmo Trincão, que reagiu mais rápido, a recolhesse e fizesse o golo. Cinco minutos depois, novo golo do Sporting, com muitas culpas para a nossa defesa. Não se percebe que tipo de organização defensiva num pontapé de canto resulta no Grimaldo a marcar directamente um dos centrais adversários. Disso não se queixou o Diomandé, que saltou praticamente à vontade para fazer o golo.

A perder por dois ao intervalo e sem mostrar sequer argumentos até então para inverter o rumo dos acontecimentos, acho que quase todos os benfiquistas sabiam pelo menos uma mudança básica que teria que acontecer: saída do João Mário para entrar o Bah (ou o Gilberto) e subida do Aursnes de forma a equilibrar a luta do meio campo. Felizmente o Roger Schmidt pensou o mesmo e nem esperou até aos sessenta e cinco minutos para o fazer, foi logo ao intervalo. A diferença foi evidente. O Aursnes depressa se encarregou de demonstrar o enorme desperdício que é tê-lo na lateral direita, em especial em jogos de maior exigência. Eu nem sequer consigo dizer onde exactamente é que ele se foi colocar, porque eu o vi em todo o lado. Na direita, na esquerda, no meio, a ajudar o ataque ou a servir o ataque. O Benfica passou a ganhar claramente a supremacia no meio campo e o Sporting já não conseguiu mais exercer a pressão alta da primeira parte, assumindo uma postura mais recuada e apostando mais no contra-ataque. Pelo contrário, o Benfica passou a ter muito mais bola e começou a fazer ao Sporting o mesmo que eles nos fizeram na primeira, com diversas bolas recuperadas ainda no meio campo adversário ou às vezes até logo à entrada da área. Na direita, o Bah veio dar profundidade àquele lado e o Nuno Santos deixou de poder subir com a liberdade que teve na primeira parte. As entradas do Musa e do Gonçalo Guedes a meio da segunda parte (para os lugares dos apagadíssimos Rafa e Gonçalo Ramos) trouxeram ainda mais dinâmica e o Benfica chegou ao golo pouco depois. Um primeiro cruzamento do Guedes na direita não encontrou sequência, mas a bola seguiu para a esquerda onde o Grimaldo a voltou a cruzar e o Aursnes apareceu solto para cabecear a bola para junto da base do poste mais distante. Ironicamente, os jogadores do Sporting ficaram a reclamar falta do Aursnes sobre o Diomandé, quando o único motivo pelo qual o Aursnes contactou com o defesa do Sporting foi porque ele foi literalmente abalroado pelo Esgaio no primeiro cruzamento, feito pelo Guedes - nem sei porque motivo aquilo não foi considerado falta (e penálti). O Aursnes levantou-se de imediato, o Diomandé preferiu ficar no chão, e o Benfica marcou. Com apenas um golo de desvantagem a pressão do Benfica intensificou-se, embora o Sporting tivesse disposto de uma ocasião flagrante para resolver o jogo. Isolado sobre a direita, o Paulinho tirou bem o António Silva da jogada e depois frente ao Vlachodimos fez aquilo que faz melhor: falhou (mas grande mérito para a defesa do Vlachodimos com o pé). A entrada do Florentino para os minutos finais ainda aumentou a vantagem do Benfica no meio campo, e nos minutos finais assistimos a vários lances em que o Sporting era incapaz não só de sair a jogar como até de afastar a bola eficazmente da sua área, sendo imediatamente recuperada pelos nossos jogadores. E foi no quarto minuto dos oito de compensação que chegámos ao empate, na sequência de um livre lateral marcado pelo Aursnes. O Musa ao segundo poste colocou a bola de cabeça para o meio, e no meio de muita atrapalhação dos defesas do Sporting para tirar dali a bola o Florentino conseguiu ganhá-la duas vezes e enviá-la na direcção da baliza, sendo esta sucessivamente devolvida até que o João Neves, à segunda tentativa, marcou golo. Para não variar os jogadores do Sporting ficaram a reclamar a legalidade do lance, o árbitro não lhes deu razão, mas o tempo que o jogo esteve interrompido quebrou completamente o ritmo e praticamente não se jogou mais até final, o que impediu que ainda fôssemos à procura de um golo que nos daria o título.

O melhor do Benfica para mim, é fácil adivinhar pelo que já escrevi até agora, foi o Aursnes. Um verdadeiro crime tê-lo amarrado na lateral direita. Assim que subiu no terreno mostrou que é no meio campo que ele é uma mais-valia. Andou um pouco por toda a parte e fez de tudo um pouco, marcando o golo que deu início à recuperação. O João Neves não esteve tão bem como nos últimos jogos, em especial na primeira parte. Foram mais perdas de bola e passes errados do que estamos habituados, mas subiu de rendimento na segunda parte e foi recompensado com o golo do empate.
Fica agora a faltar uma vitória contra o Santa Clara na última jornada para podermos finalmente atingir o objectivo desejado. Sim, eu sei que em teoria um empate até pode chegar, mas neste nosso futebol eu não sou capaz de acreditar plenamente que se o Porto tiver que ganhar por 11-0 ao Guimarães isso não acontece. Há uma equipa que joga com regras completamente diferentes das que servem para os outros. Uns exemplos: o lance do Nuno Santos sobre o Bah? Não foi penálti, e acho bem que não tenha sido. Mas se o Bah fosse jogador do Porto não tenho a menor dúvida de que seria penálti e no dia seguinte todos diriam que tinha sido muito bem assinalado porque 'houve um toque nas costas'. Quando o Porto entra na equação, a questão da famosa 'intensidade' não se coloca. É por isso que quando o Otávio em Famalicão se atira para cima do adversário de forma a provocar o contacto é obviamente penálti sem discussão porque, lá está, 'há toque do defesa'. O amarelo do Diomandé pela falta sobre o Gonçalo Ramos? Bem mostrado. Se o Gonçalo Ramos jogasse no Porto, o Diomandé ia para a rua sem discussão. Porque enterrou os pitons no tornozelo do adversário. Acima de tudo: o jogo é em casa contra o último classificado e temos a obrigação de ganhar, mas que não passe pela cabeça de ninguém qualquer tipo de triunfalismo antecipado ou menosprezo do adversário. Isso seria o primeiro passo para se escrever uma tragédia.
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