Panaceia
Uma vitória gorda sobre o Feirense, construída graças a uma segunda parte finalmente mas consentânea com aquilo que nós esperamos da nossa equipa, serviu para já de panaceia para os nossos males.
Foram-nos anunciadas ou prometidas mudanças, mas em termos de constituição da equipa titular ou mesmo variações tácticas elas foram quase imperceptíveis. Houve três alterações à equipa que tinha caído com estrondo em Munique, mas duas delas foram perfeitamente naturais (regresso do Jardel ao centro da defesa e do Gedson, que já tinha jogado a segunda parte na Alemanha, ao meio campo) e apenas a terceira foi uma pequena novidade: a titularidade do Zivkovic pela primeira vez no campeonato esta época - até agora acumulava apenas 79 minutos distribuídos por cinco jogos, sempre vindo do banco. Actuou na ala e não no meio campo, mas já foi alguma coisa. Se a constituição da equipa e a disposição táctica não acusavam as prometidas mudanças, aquilo a que assistimos drante a primeira parte confirmou isso mesmo. Foram mais quarenta e cinco minutos daquele Benfica que nos tem exasperado esta época, com uma imensa superioridade no que diz respeito à posse de bola e quase nenhuns resultados para mostrar. Não que não se notasse vontade nos jogadores para fazer mais, mas o futebol foi pobre e a escassez de ideias muita. Em termos de ocasiões de perigo e oportunidades de golo, foi quase um deserto, e só num livre directo marcado pelo Pizzi é que fizemos um remate à baliza digno desse nome. Muito pouco perante um Feirense completamente decepcionante. O treinador Nuno Manta Santos é frequentemente elogiado pelo bom futebol que a sua equipa pratica, mas esta noite na Luz não mostrou nada, nem sequer vontade de jogar. Apostou fortemente no antijogo praticamente desde o primeiro minuto, com vários jogadores a deixarem-se ficar no chão frequentemente para parar o jogo e o guarda-redes a queimar tempo em cada reposição de bola. Isto sempre perante a benevolência do árbitro, que perante tudo isto anedoticamente apenas concedeu dois minutos de compensação na primeira parte.
As mudanças prometida ficaram para a segunda parte. Os extremos Rafa e Zivkovic trocaram de lado, com o primeiro a ir para a esquerda e o segundo para a direita, e o Benfica surgiu a jogar mais agressivo, adiantando a linha de pressão vários metros - o Rafa foi um exemplo visível disso, aproveitando a sua velocidade para começar logo a pressionar as tentativas de saída de bola do Feirense, e com sucesso. Claro que o facto do génio do Jonas ter começado logo após quatro minutos a resolver o problema deverá ter feito maravilhas pela confiança de uma equipa que tem andado pela mó de baixo. O adjectivo 'brilhante' não faz justiça ao golo que ele marcou. Depois de uma combinação entre o Zivkovic e o Grimaldo na esquerda, com este último a fazer um cruzamento rasteiro para o centro da área, o Jonas com um primeiro toque de pé direito fugiu ao defesa que o marcava e depois de primeira e de pé esquerdo, já de ângulo apertado, colocou a bola no poste mais distante. Absolutamente genial. Era agora um Benfica completamente transfigurado que estava em campo, e que não se acomodou à vantagem como tantas vezes o tem feito esta época. Em vez disso foi à procura de mais como se isso fosse a coisa mais importante do mundo (não sei se mostraram isso na transmissão televisiva, mas no estádio eu reparei no pormenor do Rúben Dias a ir buscar a bola dentro da baliza e a levá-la para o centro do terreno). E percebemos logo que mais golos iriam acontecer. Num curtíssimo espaço de tempo a pressão do Rafa resultou numa recuperação de bola e no passe para o Jonas que, completamente isolado em frente à baliza, acertou mal na bola e levou-a ainda a raspar no poste. Depois o mesmo Jonas ainda marcou, mas estava em posição irregular. Mas ao fim de treze minutos a bola lá voltou a entrar na baliza do Feirense. Novamente com o Rafa na jogada: passe do Grimaldo em profundidade, o Rafa ganhou em velocidade ao defesa, passou pelo guarda-redes e sobre a linha de fundo tentou assistir o Jonas à boca da baliza, mas um defesa do Feirense antecipou-se e fez autogolo. Dez minutos depois, um merecedíssimo golo para o Rafa, numa jogada que começou precisamente numa recuperação de bola sua, e que terminou com uma finalização quase sobre a linha de golo depois de uma combinação entre o Zivkovic, Pizzi e Jonas. E o Benfica continuou sem tirar o pé, a controlar completamente o jogo e a procurar marcar mais golos que ajudassem a exorcizar os males que nos têm afectado. O Seferovic rendeu o Jonas a oito minutos do final e ainda entrou a tempo de ampliar o resultado mesmo sobre o minuto noventa, aproveitando uma má intervenção do guarda-redes depois de não ter conseguido desviar de primeira o cruzamento do Zivkovic.
Apesar da maioria provavelmente eleger o Jonas como o homem do jogo, a minha escolha vai para o Rafa. Foi sempre o elemento mais desequilibrador no nosso ataque e esteve em quase todas as jogadas de maior perigo da nossa equipa. Claro que entre ele e o Jonas não houve grande diferença, e o golo do Jonas foi algo de sublime. Pareceu-me que o Zivkovic aproveitou bem a oportunidade. Estranhamente, até o fez mais na segunda parte a jogar na esquerda, onde acabou por estar envolvido nas jogadas de três dos quatro golos. Digo 'estranhamente' porque por norma ele costuma render mais na direita do que na esquerda. Bom jogo também do Grimaldo.
Lá diz o velho ditado que uma andorinha não faz a Primavera, mas esta equipa estava claramente a precisar de um resultado destes e de uma exibição como a da segunda parte. Foi notório o alívio dos jogadores e a forma muito mais solta como jogaram à medida que o resultado começou a correr a seu favor. Resta agora saber se vão saber aproveitar isto e dar-lhe continuidade, ou se foi um mero fogacho. Espaço para mais passos em falso já deixou de haver.



Comentários
De realçar que ao contrário dos últimos jogos, mesmo com equipas "pequenas", fazíamos questão de lhes dar oxigénio e fazê-los acreditar, éramos uma equipa banal. Ontem não fizemos isso e o Feirense praticamente não existiu o jogo todo porque nós não deixamos.
É esta intensidade que temos que ter... sempre e foi essa a maior mudança que eu vi!
Como consequência disto vemos que as qualidades dos jogadores vêm ao de cima. Rafa, Jonas, Zivkovic, Gedson, Grimaldo... De entre os que jogaram ontem é difícil encontrar algum que possamos dizer que jogou mal. E isso é consequência da união e intensidade com que a equipa jogou e logicamente isso também cativou as bancadas na segunda parte. Tudo está interligado e se todos derem o seu melhor, é difícil fazer-nos frente.
Agora é preciso forçar os limites e melhorar ainda muito, pois não podemos pensar que todos os problemas se resolveram com esta vitória. Mas a segunda parte de ontem relembrou-nos a todos o que é preciso para ter o Benfica demolidor e unido que já tivemos num passado recente... seja com Vitória, Jesus, ou Maomé! Eu só quero o meu/nosso Benfica à Benfica!
VAMOS BENFICA!
João Oliveira
"Claro que o facto do génio do Eusébio ter começado logo após quatro minutos a resolver o problema deverá ter feito maravilhas pela confiança de uma equipa que tem andado pela mó de baixo."
"Claro que o facto do génio do Messi ter começado logo após quatro minutos a resolver o problema deverá ter feito maravilhas pela confiança de uma equipa que tem andado pela mó de baixo."
Totalmente de acordo.
Viva o Benfica!
Manuel Arons Carvalho
Estou totalmente de acordo com o tom do post. Ou seja, uma primeira parte pobre, com os jogadores a mostrarem mais alguma determinação e a equipa a ter muita posse, mas sem qualquer resultado prático ou objectividade. Chegou-se muito pouco à zona da verdade e, quando isso foi conseguido, rematou-se pouco - muito pouco, mesmo... - e mal. Não se vê trabalho vindo dos treinos, o futebol é demasiado lento e previsível, e o défice físico-atlético dos nossos jogadores é um handicap relevante para o desenrolar do jogo. As bolas paradas continuam a não trazer qualquer vantagem ao nosso jogo, e não há qualquer preponderância posicional dos nossos jogadores do meio campo para a frente.
Em suma, até ao intervalo, tivemos (quase) apenas mais do mesmo, à parte uma maior assertividade e uma tentativa - e foi, mesmo, só uma tentativa... - de jogar um futebol mais vertical. E o adversário, note-se, era o penúltimo classificado da liga, que não ganha um jogo para o campeonato desde o dia 20 de Agosto, quando venceu milagrosamente o Guimarães, em Guimarães...
A segunda parte foi um pouco mais condizente com o que se ao Benfica, embora as coisas tenham estado muito longe do que a equipa , ou , de jogar, para fazer jus à sua condição de equipa que luta para vencer títulos.
Na verdade, aconteceu o que já acontecera num passado recente. Ou seja, os resultados aparecem mais por força das acções individuais dos jogadores do que em resultado dos processos colectivos. E, mesmo assim, ontem ainda pudemos contar com um autogolo e com dois brindes resultantes do pouco acerto do guarda-redes adversário...
É verdade que a dinâmica de jogo da equipa melhorou após o fantástico golo do Jonas, mas continuou a falhar-se despudoradamente no último terço do terreno, tendo os restantes golos sido sempre muito mais consentidos do que conquistados.
O que preocupa, profundamente, é o facto de Rui Vitória ter saído "(...) deliciado com a nossa exibição na segunda parte (...)", o que só por si diz tudo do grau de exigência que está definido para o jogo colectivo da equipa...
Em suma, eu, que não consigo ser mais do que um optimista prevenido, cheguei ao fim do jogo simplesmente a constatar que arrecadámos três pontos, mas muito preocupado porque, olhando para as mãos, vi uma quase cheia de nada e a outra com pouco mais do que coisa nenhuma - para usar, de forma livre, as palavras que Irene Lisboa utilizou...
Oxalá os factos desmintam o meu pessimismo. Mas, estou realmente convencido que este resultado - muito mais do que a exibição... - será apenas um oásis no deserto que é o actual futebol da nossa equipa.
Viva o Benfica!
Saudações benfiquistas!