Cabeçudos, o caraças!
Ainda em relação ao amigo Lucílio. Sempre que me falam nele, lembro-me logo de várias das suas actuações memoráveis em jogos do Benfica, como a expulsão do Ricardo Rocha depois da 'falta' sobre o Deco, o arraial de pancadaria que lhe passou despercebido na final da Taça ganha ao FCP do Mourinho (que depois ainda teve a lata de se queixar da arbitragem), os critérios disciplinares 'flutuantes' que exibe nos nossos jogos, etc. Mas a performance mais memorável dele, aquela que me surge sempre nos pensamentos quando contemplo este triste figurão da arbitragem portuguesa, foi aquela no jogo que disputámos em Alvalade em 7 de Maio de 2000, jogo esse que poderia dar o título pelo qual o Clube do Lumiar (des)esperava há dezoito anos. Esse jogo para mim foi o verdadeiro deixar cair da máscara, e a partir daí nunca mais consegui confiar neste tipo. E um dos motivos pelos quais eu também nunca esqueço essa exibição arbitral memorável é também o texto que a Leonor Pinhão escreveu sobre o assunto. Ao saber que o Lucílio nos vai arbitrar na próxima sexta-feira, recordei-me novamente desse texto, e fui soprar o pó aos arquivos para o reler. Voltei a rir-me com o texto, e voltei a sentir uma pontinha de emoção quando me recordei que "Eu estive lá! Eu vi!". Por isso acabei por decidir partilhar esse texto com aqueles que não tiveram ainda a oportunidade de o ler. Aqui fica então, com a devida enorme vénia à Leonor Pinhão:
"'Lucílio Baptista prejudicou o Sporting!'
Sousa Cintra, ex-presidente do Sporting à saída do Estádio José de Alvalade, no Domingo, 7 de Maio de 2000, às 21h58.
Extenuado, André Cruz ouviu o árbitro apitar. Incrédulo, passou a mão direita pela testa na tentativa vã de limpar o suor que caía em torrentes e que se misturava, sem glória, com as águas da extraordinária chuvada. A segunda parte ia já a meio e Cruz admitiu o pior quando, do seu campo, viu Acosta encostar-se a Sérgio Nunes e atirar-se para o chão em mais um momento agudo de crise ciática.«Oh não, outra vez não, este cara está a gozar comigo!» Mas a cara de Lucílio Baptista não enganava ninguém. Oh sim, outra vez sim! Perante meio conselho de vibrantes ministros, perante autarcas e dignitários religiosos, perante banqueiros e administradores dos capitais do Estado, cabia-lhe a ele, André Cruz, pela trigésima-quarta vez naquela noite, a responsabilidade de tentar marcar de livre um golo ao Benfica.
Lucílio Baptista apitara e agora apontava para o lugar onde a bola deveria ser colocada para a cobrança. Com dores musculares, em resultado do intenso treino a que Lucílio Baptista o obrigou, o brasileiro encaminhou-se para o local escolhido e, já sem forças para ajeitar o esférico, olhou para a baliza do Benfica. «Tem graça, daqui ainda nunca tinha rematado neste jogo», pensou. Os trinta e três livres anteriores tinham sido disparados de, praticamente, todas as partes do campo: de longe, de perto, de muito longe, de muito perto, sobre a esquerda, sobre a direita, ao meio, ligeiramente enviesados para qualquer um dos lados e sempre, sempre «bem ao gosto do pé de André Cruz», como gritavam ferventes de emoção os homens das rádios e das televisões de todo o mundo.
E nada. A bola não entrava. Na sua ânsia louca de prejudicar o Sporting, Lucílio Baptista interrompia sistematicamente todas as bonitas e eficazes jogadas do ataque leonino e convertia-as em livres. Recorde-se que, em todo o jogo, só por uma vez o árbitro deixou o Sporting concluir uma movimentação colectiva que terminou com um perigoso remate de De Franceschi. Era este o caminho para a vitória mas Lucílio Baptista não queria assim. Queria livres. André Cruz já estava farto de marcar livres e sempre que ouvia Lucílio Baptista apitar não conseguia deixar de sentir um calafrio pela espinha. «Mas porque é que este cara não marca um penálti igual ao que marcou ao Boavista no jogo com o Setúbal, o clube da terra dele, e resolve isto de uma vez por todas?»
Cruz tinha razão. A arbitragem estava a ser muito habilidosa. Veja-se, por exemplo, o caso dos cartões amarelos dados praticamente a toda a equipa do Benfica. Só os ingénuos não percebem que a ideia não era levar o Sporting a vencer o jogo por ausência de adversários mas sim queimar tempo com ninharias, tomar notinhas, enervar a plateia, desmoralizar, dar tempo aos jogadores do Benfica para se recomporem do cansaço de fazer barreiras atrás de barreiras. Por exemplo, quando o árbitro mostrou o cartão a Ronaldo até se enganou, de propósito, e em vez do amarelo tirou o bloco de apontamentos que exibiu peremptório e bem alto na direcção do atónito jogador do Benfica. Com isto passaram-se mais dez segundos.
O Benfica não passava do meio campo. Nuno Gomes já ia na sua vigésima-nona falta atacante, um predador este avançado do Benfica. Lucílio Baptista não queria que o Sporting tivesse espaço para atacar e, vai daí, empurrou a equipa visitante para a sua baliza, de modo a formar um bloco compacto e intransponível. Um manhoso, este árbitro. André Cruz esfregou os olhos antes de partir para a marcação do seu trigésimo-quarto livre da noite. Depois, a custo, correu e rematou. A bola fez um arco pífio e saiu ao lado do poste direito da baliza de Enke. Agora era Lucílio Baptista que estava farto. Caramba, tinha uma reputação por defender! A partir daí o seu apito não trinaria mais, acontecesse o que acontecesse.
Mas mesmo sem apitar Lucílio Baptista não deixou de beneficiar escandalosamente o Benfica. Já bem pertinho do fim, aos 82 minutos, Nuno Gomes, por pura maldade, entra com a bola pela área do Sporting, apronta-se para passar por Toñito e ficar sozinho frente a Schmeichel. Mas não foi nada disto o que o feroz avançado benfiquista fez. Estão certamente recordados: Nuno Gomes entrou na área, desinteressou-se da jogada e sentindo Toñito no chão (o que estaria Toñito a fazer no chão?), sem piedade desatou aos saltos por cima do corpo do seu adversário numa dança selvagem. Toñito gritava, Gomes saltava por cima dele, agora a pés juntos e mordendo, em transe, a, entretanto arrancada, fitinha para o cabelo, imagem de marca do talentoso e espezinhado jogador do Sporting.
E não é que Lucílio Baptista nem cartão amarelo mostrou a Nuno Gomes que, descarado, reclamou um penálti? Não queria mais nada, não sabe, se calhar, que há mais de quatro anos que nenhum árbitro marca um penálti ao Sporting no campeonato nacional de futebol e que essa era, aliás, a única razão para que a imprensa internacional tivesse invadido, naquela noite, Alvalade. Ver para crer! Francamente, Nuno Gomes, bem pode agradecer à RTP que, em conluio com o Benfica, descreveria o lance com estas bem lisonjeiras palavras se atendermos à gravidade do que se passou: «Nuno Gomes pisa a perna do jogador do Sporting e acaba por se desequilibrar.» Ah, valentes!
Heynckes, vendo o comportamento do seu jogador, que arriscava a expulsão se se atrevesse a entrar mais uma vez na área do Sporting, resolve substitui-lo por João Tomás. A dois minutos do fim do jogo, João Tomás foge pela direita do ataque do Benfica e encontra-se frente a frente com André Cruz. «Depois de marcar trinta e quatro livres ainda querem que eu tenha pernas para agarrar este cara...», lamentou-se em surdina o jogador brasileiro enquanto via o avançado do Benfica passar por ele e entrar na área. Mas Cruz, num assomo de profissionalismo, foi a custo atrás de João Tomás e, sem forças para mais, derrubou delicadamente o rapazola.
O que se passou a seguir vai entrar na história do futebol português no capítulo dos mistérios mais inexplicáveis. Se Lucílio Baptista já tinha prometido a si próprio que não apitava mais, que loucura levou o árbitro a marcar, pela primeira vez em todo o jogo, um livre perigoso contra o Sporting? Em bom juízo deveria ter marcado falta atacante a João Tomás. Falta atacante e cartão amarelo para queimar tempo e continuar, assim, a prejudicar o Sporting como fez em todo o encontro. Mal sabia Lucílio Baptista que os comentadores da RTP, em conluio com o Benfica, chegaram mesmo a admitir que a falta, a existir, poderia ter sido cometida dentro da área, de danadinhos que estavam por uma vitória do Benfica. Um dos comentadores, por certo irresponsável, não teve medo da violência avulsa das palavras e, contra todas as regras da mais elementar decência, disse que Lucílio Baptista estava a ser «caseirinho». Mas que falta de respeito pela tribuna vip de Alvalade. Árbitros e jornalistas em compadrio para prejudicar o Sporting...
Até ao momento só há uma explicação para aquela apitadela de Lucílio Baptista. Obnubilado pelo cansaço de uma noite inteira à chuva a orientar barreiras, o árbitro, já próximo do delírio, da alucinação, reconheceu em João Tomás alguns traços físicos de Jardel, o poderoso avançado do FC Porto. De perfil, o formato da cabeça, o corte de cabelo... são mais do que vagas parecenças do benfiquista com o goleador das Antas. E foi nesta confusão, neste êxtase de troca de indentidades que Lucílio Baptista caiu inocentemente porque, é uma regra do futebol português, em caso de dúvida beneficia-se sempre os grandes. Livre, livre a favor do FC Porto! André Cruz suspirou de alívio: «Pôxa, este ao menos não sou eu que tenho de marcar!» Depois, Cruz viu um egípcio pequenino a beijar a bola e riu-se da infantilidade. Mas não se riram os duzentos adeptos do Benfica que no topo Norte do estádio assistiam ao jogo, sacrificados por amor ao seu clube à imolação programada, arriscando-se à suprema humilhação na esperança tão ínfima e tão sublime de tudo sair ao contrário e de, um dia, poderem dizer aos filhos e aos netos: «Eu estive lá. Eu vi!» E viram. Viram Abdelsatar Sabry marcar o livre virado para Meca, viram a bola a descrever um arco por cima da fresquíssima barreira do Sporting entrar direitinha no canto superior esquerdo da baliza de Schmeichel.
Este é um jogo para a lenda. Seria sempre, independentemente do resultado. Quem perdesse estava destinado a ser pasto de anedotas pelos próximos vinte anos. Cabeçudos, o caraças! Na segunda-feira, no regresso ao trabalho, os seis milhões de benfiquistas puderam entrar inteiros nas suas fábricas, escritórios, quartéis, centros comerciais, cafés, restaurantes e repetir o gesto redentor do egípcio, levando o dedo indicador da mão direita aos lábios e fazer sair um «shhhhhhhh» bíblico."
P.S.- Por acaso lembro-me bem que na segunda-feira, no regresso ao trabalho, também eu me virei para os colegas lagartos, levei o dedo indicador da mão direita aos lábios, e fiz sair um «shhhhhhhh» bíblico :)
Comentários
CARREGA, BENFICA!
vídeo:
http://www.dailymotion.com/video/x7k4b4_sporting0-benfica1-de-2000_sport
Algumas tiradas.
"Aí está URIBE, a surpresa reservada por Yupp Heynckes"
"Nuno Gomes a avançar... tentativa de carrinho... é Nuno Gomes que provoca o contacto" (a propósito do lance Tõnito-NG na área do Sporting)
A propósito de cabeçudos, o que dizer da mão cheia que os lagartos levaram ontem? Nas competições fora-de-portas torço incondicionalmente por qualquer clube português, mas ontem não consegui evitar a buzinadela ao passar pelos tristonhos no Campo Grande...efectivamente, este ano o Sporting fez história na Liga dos Campeões :p
Força Benfica!
Só por curiosidade. mUItas derrotas dessas
Isto só lá vai mesmo com ironia, qualquer tentativa de demonstrar o que se tem passado usando o realismo é pura e simplesmente um acto loucura.
Tenho é pena de não ler sempre a Leonor Pinhão e o o RAP.
Mas ainda gostei mais do outro titulo dos maso-escravos. Não conseguiram ser campeões contra nós, como só o foram depois de nós vencermos o boavista, tipo: "peguem lá, ide festejar", foi bonito ouvir alguns maso-escravos dizerem que só iriam festejar na semana seguinte.
PS: D'Arcy este post ontem pelas 00.30h sensivelmente, provocou-me um daqueles momentos: "será que é desta que vou ser internado?" :)
D'Arcy, não tenhas pena de ninguém. Não merecem :)
Como é a jornada na qual scp e fcp, um ou o outro ou os dois, perderão pontos, e ambos est~qao em confronto directo com o Benfica, é necessário garantir precisamente nesta jornada que o Benfica também perde pontos.
Espero que os jogadores estejam avisados e preparados para o que será inevitável, e sejam capazes de superar as duas equipas adversárias.
Vai ser muito difícil, lá isso vai. Mas temos de ser capazes, somos o Benfica.
mas o ultimo parágrafo é de um sublime benfiquismo e comovente benfiquismo.
"cabeçudos,o caraças" tão simples e tão revelador daquilo que tantas vezes me passa na cabeça quando tento sintetizar a importãncia estrutural que o benfica tem para mim.
obrigado,leonor...VIVA O BENFICA
Não queria deixar de me referir ao jogo de ontem do Sporting. Em defesa da "verdade desportiva" e do campeonato que o Sporting está a fazer.
Não comungo dos comentários dos benfiquistas em relação aos 0-5 que o Batern conseguiu ontem.
Ora vejamos....
Toda a gente sabe que o campeonato do Sporting resume-se a dois jogos por época, em casa e fora contra o Benfica, tudo o resto é para "preencher calendário - salvo se tiver ue enfrentar o Benfica, o único rival do singular campeonato leonino.
Ora este ano o campeonato regular do Sporting acabou, já fez os dois jogos contra o Benfica, logo o único que importa é a final da Carlberg que este ano "conta para algo" por que está lá, advinhe-se, ... o Benfica. Assim, a equipa do Sporting entrou numa pré-época até à final da Carlberg Cup.
Ora, o resultado de ontem até não foi mau, já que o Sporting está em pré-época e o Byern está em pleno campeonato e portanto muito mais rodada. Inclusivamente, nota-se alguma falta de preparação física natural nesta fase de pré-época.
Enfim... Queria apenas deixar este apontamento, porque tenho ouvido e lido muitas injustiças em relação à exibição de ontem...
Saudações Algarvias
Nao é para todos.
Salvé Leonor!!
E PLURIBUS UNUM
P.S.Muito Bem Lembrado pelo autor do post :)
Só queria alertar para uma pérola que vem no jornal que tem duas edições, OJOGO, e que diz que os espanhois estao doidos por ele(ate aqui ainda acredito) e chamam-no de Fenomeno 2, a compara-lo ao grande ronaldo dos bons velhos tempos.
Como o meu professor de portugues lhes gosta de chamar e voces também ... PASQUINS é o que sao
Para amanhã não nos podemos por a jeito...temos de mostrar desde o 1º minuto que vamos mandar no jogo e ganhar sem espinhas...!
1 abraço e Saudações Benfiquistas
Depois pode ser que o consigam impingir a uns incautos quaisquer, e talvez ele tenha tanto sucesso como o Mustang, ou Harry Potter, ou lá o que era. O que vale é que lá para cima, com a preciosa ajuda da imprensa avençada, os 'fenómenos' brotam como cogumelos num monte de estrume.
Grande post, o clube das camisas de rugby que se tornou recentemente o fcp b(vê), ao menos faz-nos sempre rir, dentro e fora de campo:
"Esta manhã como é habitual na casa do treinador do Sporting, a mulher do Paulo Bento diz:
- Acorda Paulo que já são 6.
- O quê? Já marcaram outro?"
Quando o Pelé chegou ao Porto, todos os jornais falaram do facto de o Benfica o ter dispensado, dele vir do Inter, de ter um cachecol do Porto no seu quarto... Depois de sair pela porta pequenina, ninguém menciona essa grande contratação que o Porto fez aquando da venda do Quaresma. Enfim, pormenores...
As más escolhas do Benfica são sempre empoladas, as do Porto ninguém as conhece porque senão há quem tenha de pagar as favas. O Quaresma não é aquele que tem andado a rodar nas reservas do Chelsea? Hmmm, pensava que ele era um mimo nas trivelas...e que tinha potencial para campeonatos competitivos... e que valia 20milhões€...Como se vê, mentes criativas dão para encher os bolsos ao PdCosta.
cmpts
Du
Du hast
Du hast mich
Du hast mich gefragt
Pelo menos vou estar bem acompanhado. Não levem a mal o chorrilho de impropérios com que vão ser presenteados, OK? Se houver criancinhas perto, eu vou tentar fazer uso dos eufemismos, mas não prometo nada.