Obrigado, Miguel.
Caro Miguel (não sei se é assim que te chamas),
Não me conheces e por isso não sabes que no dia 1 de Dezembro também estive no Estádio da Luz, no sector 23. Não saberás também que nesse dia levei pedagogicamente comigo a Caetana. Não interessa o sentido exacto do advérbio, importa apenas que a levei e que a levei pedagogicamente, porque há prelecções que, de tão grandes, passam por cima de muros, ainda que estes sejam muito altos e cravejados de vidros cortantes, como é o caso. Mas disto, de ensinar, saberás tu, não é, Miguel? Era um jogo importante, um jogo para o primeiro lugar. Os outros chamavam-se Vitória, mas a águia que voou no início com esse nome era nossa, tal como a vitória no final do jogo não podia senão ser nossa também, tal como aliás o primeiro lugar deveria ser também nosso, se houvesse justiça. Não há, e tu, do alto dos teus oito anos, não sabes que não há, e ainda bem que ainda não sabes, porque assim as derrotas e os empates são só derrotas e empates, não são derrotas e empates com sabor a outra coisa que não a superioridade do adversário.
Estávamos gelados, naquele sector 23, lembras-te? Ainda assim, lá fui batendo palmas, que é a único som não desafinado que consigo fazer. Se me tivesses conseguido ouvir, terias percebido como isto é verdade, e eu escusaria a explicação. Não ouviste, fica dada a explicação. Na primeira parte, o nosso Benfica foi fraquito, Miguel, mas suponho que não devas ter passado muito tempo sentado, porque a primeira vez que te vi estavas de pé, a tapar elegantemente a vista a quem estava atrás de ti, e a tua mãe (era a tua mãe?) puxava-te vigorosamente para baixo, para te sentares. Tu ignoravas a tua mãe e gesticulavas para dentro do campo, como se fossem aqueles os teus pupilos (e talvez não estivesses longe da verdade). Eu levei uma pupila também, e ainda assim não consegui gesticular para ela com essa expressiva harmonia.
E agora peço-te desculpa, Miguel, por me ter lembrado do jogo com o Penafiel a propósito do que estavas a fazer. Nesse jogo da Taça, havia na minha fila um puto, mais ou menos da tua idade, a quem deram um apito. Tu não saberás, mas um puto com um apito na boca consegue ser mais irritante que os adeptos benfiquistas com tendência crónica para a maledicência (do género daqueles que virão vociferar com caps lock para a caixinha dos comentários deste post). O puto sentava-se e levantava-se aleatoriamente, nem estava a prestar atenção ao jogo, mas não largava o apito. Então, num momento de silêncio, sentou-se e esqueceu-se de que a cadeira recolhe automaticamente, e a única coisa que se ouviu fui o ruído seco do puto a cair no chão. Rimos de satisfação e o apito não se voltou a ouvir, porque, além de ter caído no chão, o puto ainda apanhou dois tabefes da mãe. Peço-te desculpa, mas eu quis que isto te acontecesse, sobretudo porque tu tinhas a mania de te voltares para nós (mas não aleatoriamente, o que só percebi depois) e gesticulares também. Quando foi do golo dos outros, visto do meu lugar, foste insuportável. Bateste palmas, gesticulaste, saltaste, tiraste o gorro e a tua mãe teve se levantar para te sentares durante dois segundos. E foi então que te viraste para nós e pediste claramente apoio para o Benfica. Nitidamente. Como saberás, não compreendi exactamente o que estavas a querer dizer. Mas há gestos e expressões, como as tuas naquele dia, que as palavras só atrapalham, e por isso não precisei de te escutar. E só então é que percebi que, ao longo de todo aquele tempo, estiveste sempre a pedir apoio para o Benfica. Sempre, sempre. E isso tornou-te um pouco menos irritante, Miguel. Quando começou a segunda parte, lá estavas tu a gesticular, enquanto toda a bancada estava sentada, gelada e amuada. Que irritante, Miguel, só faltou teres um apito na boca! A equipa estava a jogar mal, caramba! E o teu apoio frenético começava a chatear-me, porque me parecia deslocado, excessivo.
A distância a que estava, com a histeria que é para mim um golo do Benfica e com a celebração com a Caetana, não te consegui ver depois de o Katsouranis ter marcado o golo. Mas, depois da euforia, com uma face confiante, lá estavas tu virado para trás, quase ignorando o jogo, a pedir apoio freneticamente. Como fizeste, pelo menos, desde que te vi a primeira vez (apercebo-me agora). Veio o segundo golo, ficaste eufórico, a tua mãe continuava a puxar-te para baixo e tu só te querias voltar para trás para bater palmas para nós. Para bater palmas para nós?
Foi só então que percebi que eras surdo-mudo. Fiquei mudo, claro, e não soube o que fazer com as mãos, como me acontece ordinariamente quando alguém me reconcilia com a minha vida. Apresentei-te, a distância, à Caetana, e a partir daí cantámos ambos horrivelmente (nisso eu e a Caetana somos parecidos, ainda que eu não a tenha ouvido porque estava a gritar por mim e por ti), batemos palmas, levantámo-nos, gritámos Benfica, apoiámos com todas as desarranjadas cordas vocais que temos, desafinámos, devemos ter feito uma figura ridícula. Mas como podíamos nós fazer outra coisa que não aquela? Como podíamos nós responder de outro modo ao teu apelo? O que podíamos nós fazer diante da tua grandeza? Não foste irritante, Miguel, desculpa. Apenas nos pediste que fizéssemos o que tu não podes, infelizmente, fazer: apoiar o teu clube gritando. Deves ter pensado, com razão, “Dá Deus voz…”.
Peço-te desculpa, Miguel, porque, quando te voltaste para trás desesperado (e é dessa expressão que eu não me hei-de esquecer nunca) a pedir apoio depois de os outros terem marcado o golo do empate, eu estava incrédulo com o Quim e a Caetana desanimada, e não, Miguel, nesse momento não apoiámos. Mas apoiámos depois, naqueles três minutos quase não nos sentámos. Por nós e por ti.
Quando acabou o jogo, Miguel, a tua mãe levou-te. Alguns adeptos já se tinham ido embora. Mas quero que saibas que eu e a Caetana ficámos os dois de pé – os únicos na nossa fila – a aplaudir os jogadores, ainda que à nossa volta se vaiasse a equipa. O Luís de Sttau Monteiro escreveu um dia que “Há homens que obrigam todos os outros homens a reverem-se por dentro”. Tu és daqueles benfiquistas honestamente hiperbólicos que nos obrigam a revermo-nos por dentro. Comigo e com a Caetana foi isso que aconteceu.
Naquele dia, podia ter chegado a casa e ter escrito um comentário a crucificar o Quim. Não fui capaz, Miguel, porque não consegui sentir-me revoltado. Triste sim, mas não revoltado. E a culpa foi tua – não podias ser um puto banal, um puto chato, um puto que não me tivesse tirado o protagonismo pedagógico junto da Caetana? Depois de ti, que lhe posso eu ensinar? Não podias ser um puto mimado, daqueles que ao intervalo precisam de coca-cola e gelados e cachorros e doces, em vez de seres um puto surdo-mudo de óculos e gorro a gesticular para o relvado da Luz? É que assim não vinha eu para casa com a certeza de que nada se ouviu mais alto naquele estádio naquela noite do que o teu silêncio, nem ninguém, por mais que tenha gritado e vociferado (mesmo aqueles que espumavam ofensas ao Quim) ensinou melhor a Caetana. As palmas no final, caro Miguel, as minhas e as da Caetana, que tu já não viste, eram para ti e para os jogadores, porque ao contrário daquele adepto que me perguntou por que razão estava eu a bater palmas (de uma maneira rude, com cuspo e espuma na boca à mistura) eu tenho sempre de aplaudir aqueles senhores, ainda que joguem mal, porque estão ao serviço de um clube que será sempre maior que eles, e, é verdade, não consegui esquecer-me de ti e da mestria da tua lição de apoio ao Benfica: façamos nós, os que lá vamos, pelo menos o pouco que muitos não podem fazer – apoiar. E voltámos para casa, a Caetana um pouco maior, eu indescritivelmente pequeno.
Obrigado, Miguel.
Comentários
Tarefa seguinte: tentar encontrar este "Miguel", quanto mais não seja em cada um de nós, no nosso benfiquismo.
Abraço.
Este texto está simplesmente lindo.
Era de mais Migueis assim que o estádio da Luz precisa em todos os jogos, para ver se o Inferno da Luz volta e os nosso adversários começam a ter receio em jogar lá!
Texto poderoso que me arrepiou...
Obrigado ao Miguel e ao Pedrov.
Abraço benfiquista!
Parabéns Pedrov!
Força Benfica!
Que pena não ter lido isto ontem pois o dia tinha passado muito mais bem disposto e cheio de garra e esperança!
Sem duvida candidato a post do ano .
Não se lamente de ter criticado o Quim, teve toda a razão. Não são as derrotas por si só, mas sim "estas" derrotas que vão adormecendo o "Miguel" que todos temos dentro de nós, afinal é essa a genese de ser Benfiquista.
SEM COMENTÁRIOS, do mais puro, honesto e sincero que já li na blogsfera.
Parabens... tudo perde importancia perante isto!
tomei a liberdade de dar destaque a este tópico no GeracaoBenfica.
http://geracaobenfica.blogspot.com/2008/12/d-deus-voz.html
Parabéns a ti, e ao Miguel
Obviamente que ainda se vêm vários exemplos de pureza e Amor ao Benfica em cada jogo do Glorioso no Estádio da Luz. Este é um deles, da mesma maneira que quem escreve o texto em última análise está a fazer um declaração de Amor ao que cada um de nós sente pelo Benfica. Parabéns ao Miguel pelo exemplo que nos dá e para o Pedrov pela maneira "apaixonada" com que nos transmite esta experiência.
Deêm a ler este texto, aos jogadores, que pode ser percebam a responsabilidade que têm e que a saibam assumir.
Cumprimentos.
Eu sou uma doente... Para mim, tudo no Benfica é quase perfeito, ponho-o à frente de tudo, sou incapaz de ouvir insultos a jogadores/instituição calada, mas, na segunda, fui incapaz de aplaudir a equipa no final. O Quim está agora a ser crucificado, talvez nem mereça por tudo o que tem dado ao clube, mas os adeptos, como nós, são irracionais, não analisam tudo ao pormenor, querem os 3 pontos, querem ganhar, querem o campeonato. Ele não nos permitiu que isso acontecesse e, ainda para mais, foi incapaz de dar a cara e assumir as culpas. Saiu para o balneário disparado, sem agradecer o nosso apoio. Merecíamos mais e quase aposto que, se o Quim tem ido ao centro do relvado agradecer, metade dos que estavam no estádio não saíam tão frustrados/arreliados como saíram. Afinal, quem não se recorda dos jogos em que perdemos e ou aplaudimos a equipa ou no túnel de acesso ao estádio todos se põe a gritar pelo Benfica?
SER BENFIQUISTA É ...ENCONTRAR O MIGUEL QUE DEVERÁ EXISTIR EM NÓS!
PARABÉNS por este puro bálsamo ideal para a ferida aberta em 01DEZ e que ainda não sarou.
Ó Helena não é costume mas discordo de si, então depois do que se tem visto desde 2ª até hoje, você acha mesmo que se o Quim fosse a centro do campo ele iria ser aplaudido? Eu não acho.
E querem o quê? que ele faça um comunicado de imprensa a pedir desculpas por uma falha que teve? Se exigirmos isso a todos que falham, bem, até pode ser bom, pode ser que o rui santos deixe de ter espaço para o seu tempo de antena.
É que isto dos amores e odios de estimação incomoda-me um bocadinho.
Cumprimentos.
Grande. Um dos melhores textos relativos ao Benfica que me lembro de ler.
Obrigado!
Sai com a sincera impressão de que se é para isto que esta gente vem à Luz porque não fica em casa?
Gritei, bati palmas, insultei os adversarios e arbitro, apoiei os meus. Cantei canticos com a claque, tentei aprender a letra de canticos novos que eu ainda não conheço.
Quando foi golo do Setubal, "amiga" minha que se encontrava na fila da frente virou-se para mim e perguntou: "E agora não cantas?" Cantei ainda mais forte! No final também bati palmas e gritei Benfica! Doi, doi muito, mas ser Benfiquista é saber ganhar e perder...e eu sei perder porque sei que mesmo nas derrotas o Benfica é, e será sempre, o maior.
Off-topic:
Já ontem, tinha dito, que existe um palhaço chamado Ricardo Pt, que pelos vistos chamou os amigos, e está a dizer que o Porto não foi condenado, que ta tudo arquivado; que o Benfica é corrupto, que conversa com árbitros, que não foi investigado; que no lance do árbitro contra o Setubal, o árbitro já tinha apitado à 10 segundos...e ainda, pergunta se eu tenho alguma coisa contra os àrbitros do Porto???!!!!
Eu não tenho tempo, para andar a responder a este FILHO DA PUTA, que anda a denegrir o nosso clube.
Quem puder, que vá lá e diga umas verdades a esse corrupto cabrão!!!
http://colunas.sportv.com.br/jogoaberto/2008/12/01/futebol-europeu-6/#comments
(Eu confesso que não consegui aplaudir a equipa no final. Estava demasiado frustrado.)
P.S. Não resisto a dizer isto, mas se esta cena se passasse no estádio do dragay, o adepto chegaria a casa e diria à mulher: "Fo...-se, estava lá um puto deficiente que não parava quieto, só me apeteceu partir-lhe a tromba! Onde é que já se viu puxar pela equipa quando se está a perder?!"
Parabéns Miguel(?)
Parabéns PedroV
Raios! O que se pode dizer mais?
Fabuloso
Mais nada a dizer, as lágrimas escorrem-me pelo rosto.
obrigado Pedrov. . .
obrigado Miguel!
topo sul.
Só com muito orgulho de pertencer a esta família!
Viva o Benfica!
Bastaria, por exemplo, que cada responsável e leitor deste blog imprimisse 20 cópias (ou até mais, dentro das possibilidades de cada um) deste texto e o fizesse passar, já no próximo jogo com o Nacional, pelas bancadas da Luz.
Acho que era o suficiente para reavivar o Inferno da Luz. O Benfica e os benfiquistas estão a precisar disto: paixão e vitórias. Poderia o Tertúlia Benfiquista fazer mais e melhor pelo clube do que esta manifestação de benfiquismo puro e incondicional - é afinal para isto que estas coisas servem!
Pensem nisso (comigo podem contar); há momentos para escrever e outros para agir!
Força SLB
Espero que da próxima vez, se o encontrar, lhe agradeça, pelo menos por mim...
Muito obrigado.
Ao saberes 'ouvir' as incitações do MIGUEL, deste-lhe voz!
Mas este texto, esta história, apesar de ser superior ao que vou lamentar, fez-me lembrar algo que muitas vezes digo e ouço dizerem.
Contextualizando, eu sou (como muitos outro) benfiquista no norte do país, logo com muita dificuldade em ir ver os jogos à nossa catedral, e pergunto-me: como é possível estarem 40.000 pessoas num estádio e estar um silencio do carlh*? Podem ter a certeza... se nosso estádio fosse em Braga, não digo que teríamos um melhor clube, ou que ganhássemos mais vezes, mas que o estádio seria infernal, lá isso não tenham duvida.
Quando forem ao estádio tentem apoiar mais os nossos jogadores porque eles bem precisam, para assim nos darem grandes alegrias.... eu acredito num Benfica Campeão!
BENFICA SEMPRE!!
Fantástico Pedrov. Parabéns pela tua grande capacidade de conseguires através da escrita partilhares estas pequenas/grandes lições de vida que nos fazem muitas vezes parar para pensar no que realmente interessa...
Não vejo muito disto nos dias que correm, e fico muito contente quando vejo estes exemplos virem de dentro de umas das minhas grandes paixões, o Grande Benfica.
Saudações para todos os bloguistas/benfiquistas...
O sector 23 é grande!
Luis,
diz que o sedtor 24 também não é nada mau (isto, de forma absolutamente desinteressada, claro).
Só há uma correcção que tem que ser feita: não foi só "pedagogicamente" que me levou consigo, foi pedagógica e amigavelmente.
obrigada também por este post, são pessoas assim que nos dão sentido á vida.
clap clap clap