Glórias benfiquistas: Nené


Tamagnini Manuel Gomes Batista Nené, nascido no dia 20 de Novembro de 1949, em Leça da Palmeira. Para a História fica conhecido como Nené, o Nené do Benfica que marca um tempo em que se falava do Benfica do Bento, do Humberto, do Shéu, do Néné…


 


Nené é, de todos os que tiveram a supina honra de jogar de águia ao peito, o que mais vezes vestiu a nossa gloriosa camisola: 941 vezes, entre jogos particulares e oficiais nos diferentes escalões. Construiu toda a sua carreira sénior no Benfica. Jogava em Moçambique, no Ferroviário da Manga, quando, em Dezembro de 1966, o Benfica começou a negociar a sua transferência. Era um miúdo com apenas 16 anos!! No ano seguinte já jogava nos juniores do Benfica, no Clube onde já um seu familiar se tornara mítico: Cavém. O Néné deixou o futebol 20 anos depois, em 1986. Jogou sempre no Glorioso. Como sénior, fez 577 jogos oficiais, marcou 361 golos, ganhou 10 Campeonatos Nacionais, 7 Taças de Portugal e 2 Super Taças.



Começou, devido à sua impressionante velocidade, como extremo-direito. Em 75/76 já era ponta-de-lança. Se já marcava muitos golos como extremo, como ponta-de-lança passou a ser, constantemente, um dos melhores marcadores do nosso campeonato. O seu talento como goleador fez dele o terceiro melhor marcador da História do nosso Clube… batido apenas por dois futebolistas cujo nome se confunde com o do próprio Benfica: Eusébio e José Águas.


 


Na minha juventude, habituei-me à grande probabilidade de ouvir o nome do Nené gritado nos relatos radiofónicos depois de se ter gritado golo do Benfica. Nené era o avançado sempre presente, com o número 7 herdado dos primeiros tempos como extremo. Foi o Nené que me fez gritar golo por três vezes numa final da Taça de Portugal contra o FC Porto. Era o Nené de quem os mais velhos contavam façanhas ímpares como a de ter marcado 5 golos ao Ajax, no Parque dos Príncipes, durante o Torneio de Paris. Era o Nené que, quase pairando, quase sem se sentir o seu peso no relvado e dissimulado como devem ser os pontas-de-lança que parecem jogar de smoking, surgia de onde menos se esperava para fazer o que é mais difícil e mais valioso no futebol. O Nené é o grande mito que podia estar “ausente” do jogo durante 89 minutos, mas a quem bastava um subtil toque na bola, no nonagésimo minuto, para fazer o golo.



À “boa” maneira portuguesa, chegado aos 30 anos já o tratavam como um veterano a quem antecipavam a reforma. À boa maneira dos verdadeiros campeões, Nené ia mostrando, plácida e eficazmente, a todos (desde adeptos a jornalistas) que há capacidades que se refinam… a de marcar golos é uma delas. Assim, sucessivamente iam aparecendo concorrentes para o lugar e sucessivamente o Nené lá se encarregava de ir mostrando que o lugar tinha um nome, o seu nome. Em 84, durante o Europeu, o Nené encarregou-se de mostrar que, também ao serviço da Selecção, havia um lugar para si. Apesar da excelência da concorrência (Jordão e Gomes). Nené acabou, mais uma vez, por mostrar a sua utilidade, o seu instinto goleador e a sua importância para tentar a coesão de um grupo fragmentado por natureza. No Benfica, mesmo em final de carreira, demonstrou a um casmurro de má memória chamado Csernai que ainda tinha muito para dar ao Benfica e ao futebol. Na Selecção AA teve 66 internacionalizações e marcou 22 golos. Estes números são impressionantes se atendermos à quantidade de jogos que a nossa Selecção fazia anualmente e à ausência da mesma em grandes competições internacionais. Imaginem quantas internacionalizações não teria Nené se jogasse actualmente…



No entanto, também à “boa” maneira portuguesa, o sucesso provoca tantas alegrias como injustiças. Assim, o Nené teve de viver com o estigma de ser um futebolista medroso que raramente “metia o pé”. Sobre esse assunto, veja-se a resposta que Nené dava a jornalistas e adeptos em 1976:


«Já há tempo dei uma entrevista ao jornal A BOLA em que afirmei que maluco é que não sou. Se existem jogadores que metem o pé em certos lances onde por norma só vão buscar problemas para eles e para os clubes que lhes pagam, isso e lá com eles.


Eu não sou assim. […] o que sei, isso sim, é fugir na hora exacta, mas normalmente com a bola a ficar na minha posse, […], tentando não me molestar sem vantagem para ninguém. Mesmo assim ainda este ano fui o segundo melhor marcador do campeonato e, caso curioso que a maioria dos sócios talvez não tivesse reparado, marquei nos sessenta e tal encontros que disputei durante a temporada, entre oficiais e particulares, a media de um golo por desafio, o que ficou longe de qualquer outro colega e, muito menos, da totalidade dos atacantes portugueses.


Quanto ao insultarem-me e dizerem-me que lhes faz confusão como consigo aguentar uma hora e meia sem nunca reagir menos delicadamente, posso garantir que aguentaria até um dia inteiro, pelo que escusam de continuar a adoptar tal sistema que me dispenso de criticar. Sou assim por temperamento pelo que jamais tomarei uma atitude menos correcta para com tais adeptos do meu clube. Aliás, tenho até para mim que aqueles que assim procedem não são os sócios com dez, quinze, vinte e mais anos de associados. São os que entraram na «família» há dois ou três anos e que, talvez por serem novos, reagem mais rapidamente para se tornarem notados e mostrarem aos mais velhos o seu muito benfiquismo...


Uma verdade poderei dizer: o meu sistema de jogar é este desde miúdo. Não me sinto arrependido de ter sido sempre um jogador correcto para os adversários e para o público. Creio com tal sistema haver sempre servido com dignidade o meu clube e, simultaneamente, o clube que me paga. Quanto às palavras que me dirigem continuarei talvez a ouvi-las mas, como as atitudes ficam com quem quem as pratica, nada é comigo...»


 


Também sempre associada à imagem do Nené está o velho chavão de que ele “nunca sujava os calções”. «Se os não sujava era porque achava que não precisava.» Remate certeiro e golo.


 


Era assim o Nené, inteligente e frio com as palavras, inteligente e frio no momento de rematar para a baliza. É assim o nosso Nené, apaixonado pelo seu (nosso) Benfica e orgulhoso da sua carreira «Sinto-me um privilegiado. Afinal foram tantos os jogadores a representar o Benfica e ser logo eu a ter a sorte de jogar mais vezes do que todos os outros».


 


É de exemplos como o de Nené que o meu benfiquismo se foi construindo. É a senhores como o Nené que eu tenho de agradecer o que contribuíram para cimentar a paixão que continuo a sentir pelo nosso Benfica.


 

Comentários

Carlos Silva disse…
...analogias...

:)
D'Arcy disse…
O meu maior ídolo no Benfica. A razão pela qual o número sete sempre foi o meu preferido, e por isso no ciclo preparatório, nas aulas de Ed.Física, discutia sempre com os colegas para ficar com o colete com esse número. Nené para mim era sinónimo de Benfica. E da primeira vez que pude vê-lo jogar ao vivo, tive a sorte de o ver marcar uma data de golos (acho que foram três), numa vitória sobre o Farense, no Estádio de S.Luís, por 7-2.
D'Arcy disse…
Mas o jogo que fez com que o Nené passasse a ser o maior para mim foi mesmo aquela final da Taça de Portugal, em que ele marcou três ao porto e nós ganhámos 3-1. Era um puto, devia ter uns 7 ou 8 anos na altura, e pouco ou nada percebia de bola. Mas já sabia que era do Benfica, e que o Nené era o maior.
Anónimo disse…
Que Grand Post entusiasmente ...
Por isso acho este blog ... um blog de grande referência e qualidade ...

Mémorias Visuais descobertas no Baú que desconhecia e que esta pequena biografia ... bem definida... me faz sentir um orgulho enorme do meu Benfica .)...

Um protagonista que não se deixou enredar "por créditos alheios" ... um Benfiquista de "gema"... de
Grande apanágio a uma personagem que se soube impor pela Vontade de Vencedor... ao serviço de Um Clube MAIOR...

A paixão pelo Benfica essa perdurá SEMPRE ...

Benfiquista Duriense...


Arsène Lupin disse…
Um grande senhor e um grande benfiquista.

Daqueles que ajudaram a construir a nossa mística, e que estão presentes naqueles instantâneos benfiquistas que até dão arrepios.

Excelente post, sem dúvida.
AXN disse…
"No entanto, também à “boa” maneira portuguesa, o sucesso provoca tantas alegrias como injustiças. Assim, o Nené teve de viver com o estigma de ser um futebolista medroso que raramente “metia o pé. ”

A este propósito, ainda hoje recordo uma história por mim vivida no 3º Anel!
Sábado à tarde, Benfica - Varzim.
Depois de uma manhã solarenga,e após o início do jogo, cai uma daquelas 'carga de água' de ensopar a alma benfiquista.
Imaginem o estado do relvado da antiga Luz.
O jogo corria mal p'rás nossas cores, e o Nené a fazer um mau jogo, e - por ser o único (incluindo o árbitro, que caira) - a manter a alvura dos calções, era "incentivado" com expressões, de todos por demais conhecidas.
O Benje, formado no Benfica, tudo defendia e ia garantindo o empate 1-1.
A meia dúzia de minutos do final, canto contra o Varzim.
Sem ninguém dar por ele, e ainda sem sujar os calções, Nené faz um soberbo golo de calcanhar!
Ahh, 'ganda' Nené! 'Ganda' jogador! Nem precisa de sujar os calções!Expessões do 3º Anel, após a vitória!

Coxo disse…
Efectivamente um dos maiores! Excelente Post! Parabéns.
necas disse…
Obviamente que também admiro o Néné.
Além da sua qualidade e categoria, tinha mais um atributo: era inteligente.
Que jeitaço daria hoje ao Benfica o tal Néné .
Aliás o futebol mudou mas a classe é a mesma. Relembro também a qualidade de Jordão, Gomes e Manuel Fernandes.
Jogadores com amor ao clube e á camisola e que valiam por um autocarro de jogadores brasileiros que actuam em Portugal.
norte vermelho disse…
post muito bom continua pedro f.

isto é fomentar e cimentar o benfiquismo
coisa que é bastante precisa nos momentos que correm
Grande Néné!

Nos idos de 71, em Lourenço Marques, vi jogar o Néné pela primeira vez. Foi no Troféu TAP. O Bento também jogou, apesar do titular ser ainda o Zé Gato. O adversário foi o scp.

Nessa altura, avançados eram o Néné, o Jordão, o Artur Jorge, o Vítor Baptista e o Eusébio. Luxos...

A quem o criticava, este grande jogador respondia: "se a bola vai fora, eu não corro..."

Grande Néné! Houvesse nesta equipa um como tu!

(sem querer com isto desvalorizar os bons avançados que temos)
pge disse…
Muito bom..
Que inveja eu tenho de não ter memórias desses tempos (então quando me falam no Chalana...)
Apenas me lembro muito vagamente do Europeu 84 e porque ja revi mais recentemente algumas imagens.

Cumprimentos.
S.L.B. disse…
Grandes recordações do Néné. Era relativamente puto, mas mesmo assim lembro-me bem. Obrigado por me fazeres lembrar dele, Pedro.
Marreta Vermelho disse…
Lembro-me perfeitamente do Néné, de ver muitos jogos com a camisola 7 do Benfica, eu também tive uma com esse nº, na altura não haviam camisolas oficiais para vender, tínhamos mesmo que inventar. E lembro-me muitas vezes de ouvir os sócios do Terceiro Anel a assobiarem o Néné, até ao momento em que ele fuzilava as redes contrárias. Claro que esse hattrick na final com o Porto, 3 passes de Shéu, ficaram na memória, tal como muitos outros. Desses tempos só Filipovic lhe fez alguma sombra, formaram uma dupla que me deu muitas alegrias. E lembro-me muitas vezes dos assobios ao Néné, quando ouço assobiar o Nuno Gomes, daqui a uns anos comentarei aqui no post sobre ele ;)
Jorge Ventura disse…
Juro q m assustaram c esta.. qdo vi o post perdoem-me mas pensei imediatamente q o Néné tinha falecido subitamente...fui a correr aos sites das noticias receber a nefasta confirmação mas felizmente nada...e então voltei aqui, li atentamente e percebi q era apenas uma singela homenagem...desculpem, é q neste País normalmente só se reconhece as pessoas depois de elas já não estarem entre nós...parabéns Pedro por o fazeres em tempo útil...e já agora deixem-me dizê-lo que o Néné foi um dos meus ídolos de pequeno...e lembro-me de 1 jogo em que na luz antiga a relva era um lamaçal e aos 88 minutos de jogo não se distinguiam os jogadores do Benfica dos da outra equipa tal era a lama agarrada aos equipamentos...com excepção do Néné que continuava com o seu encarnado e branco imaculado...e eis que alguém o rasteira de propósito e ele cai e suja-se um pouco...foi a gargalhada geral no estádio...tempos idos mas muito saudosos...!
Bem hajas Pedro
Saudações Benfiquistas
Txalo disse…
Fabuloso o texto! Mas com simplicidade e inteligência. Como o Néné.
John Lito disse…
depois de ler este post "choro" por nunca ter visto NÉNÉ jogar!!!
Abel Pontes disse…
Era um prazer ver jogar o Néné. Ás vezes nos jogos, quando a bola andava perto da nossa área, deixava de seguir o jogo para ver o que ele andava a fazer. E ele lá estava no meio campo, a movimentar-se de um lado para o outro, a por a cabeça em água aos defesas que em vez de estarem concentrados no ataque da sua equipa, estavam era preocupados com ele. Desaparecia e de repente a bola estava no fundo da baliza, com um toque que era quase uma festa na bola, eficiente e simples.

Que grande jogador!

Saudações Benfiquistas

P.S.: Havia quem não gostasse, mas semprei achei fantástico ele não sujar o equipamento.
PR disse…
Grande Pedro.

Belo post. O Nené é uma referência eterna do nosso clube. Também vi essa final da Taça e nunca mais me esqueci. Cresci a ver (e ouvir os relatos no rádio) o Nené a marcar golos e não tenho dúvida de que ele podia ter jogado mais tempo. E que é um exemplo de benfiquismo. O eterno nº 7.
Aquele abraço
LES disse…
Era eu um puto entrava á borla no Estádio da Luz onde ia aos Domingos depois do almoço, que engolia ás pressas, ver o Benfica contra os adversários que só lá estavam para se poder ver o Benfica a jogar, éramos campeões quase todos os anos e o meu jogador favorito era sem dúvida o Nené aquele que não sujava os calções, aquele que partia sete metros atrás de um defesa e chegava sete metros à frente, aquele que todos os anos era o avançado do Benfica e que até hoje é uma referência serena do nosso Glorioso. De notar que não me lembro de o ver zangado, por certo zangou-se alguma vezes mas eu não tenho essa imagem tenho sim a imagem de ele estar sempre com um sorriso . Adorei o seu post .
Glorioso disse…
Ppl, por favor visitem e ajudem a divulgar o nosso novo blog:


http://futebolcorruptodoporto.blogspot.com/

Obrigado e saudações gloriosas!
Diabo Vermelho disse…
Eu não sou do tempo do Eusébio, para mim a grande referência do Benfica sempre foi o NéNé.

Quando se joga com inteligência, não se precisa de corridas desenfreadas, de fintas para perder tempo de remate, nem muitas oportunidades

Saber esperar o momento certo e desferir um ataque letal, era fantástico.

Nada de exibicionismos e grosseirismos, curto e simples.

Eficácia quase total
José Luís Oliveira disse…
O Nené sempre foi a minha referência no Benfica. Lembro-me de ir com os meus Pais de carro na 2ª Circular e o autocarro do Benfica estar parado ao nosso lado. E o Nené acenou-me. E nesse jogo marcou! Ficou o meu preferido.
Mas na 2ª fotografia está um grande profissional: Michael Manniche. O genuíno Manniche. Alto e louro era um "enorme" jogador.
Saudações Benfiquistas