Derbies

Quando, no Domingo à noite, me sentar no estádio situado no Lumiar, estarei a assistir ao meu vigésimo derby consecutivo em casa dos nossos rivais (quando penso que já são tantos aqueles a que já assisti, começo a sentir-me velho). Comecei a assistir aos derbies quando vivia no Algarve; o Benfica era uma paixão que não se satisfazia apenas vendo-o jogar uma vez por ano, sempre que defrontava o Farense no Estádio de S.Luís. Então chateava o meu pai e acabava por vir a Lisboa assistir aos 'jogos grandes'. Como as vitórias em casa do rival nesses primeiros anos eram quase uma constante, habituei-me ao saborzinho especial que elas me proporcionavam, e então nunca mais consegui evitar assistir ao vivo a este jogo que, para mim, é especial.

Sim, porque eu cresci numa época em que me perguntavam sempre 'És do Benfica ou do Sportém?". O rival do Benfica para mim sempre foram eles, e o Porto nunca passou de um bando de gente estranha que acha que é de outro país, e que gosta de fazer muito barulho lá nesse país imaginário deles quando ganham alguma coisa, para ver se a gente lhes dá alguma atenção. É assim uma espécie de pato bravo, que de repente se apanha com muito dinheiro e resolve ir comprar o Mercedes com a buzina folclórica, a santinha no tablier e o CD pendurado no retrovisor para dar nas vistas. Acelera muito sempre que passa na vila, para fazer mais barulho com o motor, e toca a buzina, que faz soar o 'La Cucaracha', convencido que isso lhe dá estilo e respeito, mas a única coisa que acaba por conseguir é um encolher de ombros, um abanar de cabeça, e um comentário sussurrado entre dentes: 'Parolo...'. Já o Sportém é o vizinho que vive mesmo ao nosso lado, num casebre modesto que pertenceu ao bisavô e que lá se vai aguentando em pé, forrado a azulejos para disfarçar o mofo, e que passa o tempo todo a olhar por cima da sebe para as nossas galinhas, relva e vacas, insistindo que o bando de pardais que ocupa o seu quintal dá mais ovos, que as urtigas dele são mais verdes, e que a ovelha que ganhou na última rifa de Natal dá mais leite. Claro que nós sabemos que isto é tudo mentira, mas o matraquear constante deles vai sempre moendo o juízo, e por isso dá sempre gozo demonstrar-lhes o quão estão errados.

Mas eu divago. Eu queria mesmo era recordar alguns dos derbies a que já assisti ao longo destes anos, por isso vamos a isto.

1988/89: Foi o primeiro. O Benfica chegou a Alvalade já campeão, e nem sequer me passava pela cabeça que o resultado fosse outro que não a vitória. Do nosso lado havia jogadores como o Valdo ou o Mozer, e do outro lado aparecia-nos o Rui Correia na baliza. Vencemos por 2-0, com golos do Valdo e do estrambólico Abel Campos. Assisti ao jogo debaixo da pala do velho Alvalade, e na minha inocência festejei efusivamente os nossos golos, o que provocou alguns olhares de solsaio. Sentado ao meu lado, um sportinguista simpático aconselhou-me a ter calma porque 'o pessoal ali é um bocado intolerante'. OK, conselho acatado.

1989/90: Nova vitória, desta vez por 1-0, e com um golo do César Brito. Desta vez fui para a bancada 'nova', do lado oposto à pala (e fiquei mais uma vez frustrado por não estar no Topo Norte, onde se concentravam os benfiquistas). Ainda sorrio quando me lembro de uns sportinguistas à minha volta estarem dedicados ao seu passatempo favorito, ou seja, falar mal seja do que for relativamente ao Benfica. Neste caso específico estavam a cascar nos suecos do Benfica, que só jogavam porque o treinador do Benfica era o Eriksson, e mostravam-se particularmente críticos do Thern, que apelidavam de 'jogador banal'. Logo no início do jogo o Thern recebe a bola e manda um estoiro a uns bons trinta metros da baliza, que embate com estrondo na barra. Não voltaram a falar mal do Thern durante o jogo.

1990/91: Três jogos em Alvalade, três vitórias. Como se pode perceber, fiquei bem habituado. Desta vez foi por 2-0, e fui eu a fazer uma figura triste. O Isaías era um jogador que eu adorava, mas que conseguia fazer-me perder a cabeça facilmente devido às opções disparatadas que por vezes tomava (como optar por um remate a trinta metros da baliza quando tinha dois colegas a desmarcarem-se isolados). Nesse jogo o Isaías começou o jogo num dia particularmente inspirado, acumulando disparates uns atrás dos outros, o que ao fim de alguns minutos já me tinha posto a rogar-lhe pragas. Depois de mais um remate disparatado não me contive e berrei 'Epá, ó Isaías, és uma besta!'. No ataque seguinte o Isaías marcou o 1-0, e um miúdo que estava sentado à minha frente voltou-se para trás e disse 'Fala lá mal do Isaías agora!'. Não me restou outra opção senão engolir. Perto do final o inevitável César Brito lá entrou, a tempo de marcar o segundo golo.

1993/94: Acho que todos os benfiquistas têm uma história para contar sobre este jogo, por isso não vou contar aqui nada de novo. Depois de no ano anterior ter pela primeira vez assistido a uma derrota do Benfica em Alvalade (com o Balakov a marcar aos doze segundos), e depois de ter levado com a lagartagem a prometer-me goleadas durante a semana toda, estava um pouco apreensivo para o jogo, mas com sede de 'vingança'. O que se passou durante o jogo todos sabem. Chorei, andei abraçado a desconhecidos, pela primeira vez na vida andei a gritar pelo Sportém (durante grande parte do segundo tempo), fiquei afónico e constipado, e recordo esse fim de tarde como um dos momentos mais fantásticos que já vivi num estádio de futebol. Mas o momento cómico que nunca esqueci foi mesmo quando no carro do meu pai, que me levou ao estádio mas não foi ao jogo, enquanto faziam a antevisão do jogo pediram um prognóstico ao Sousa Cintra. "Iste hoje vai sair daqui um resultade estórique!". Na mouche, presidente.

1997/98: A chegada do Artur Jorge ao Benfica significou o iníco de um jejum nas vitórias em Alvalade, e só quatro anos depois voltámos a vencer. Também tirámos a barriga de misérias, e foi logo por 4-1, num jogo em que o Poborsky brilhou, o Deane fez gato-sapato do Marco Aurélio e mostrou que tosco era só alcunha, e o João Pinto voltou a marcar em Alvalade. Uma imagem que me ficou foi a do Carlos Manuel (na altura no banco de Alvalade) a voltar as costas ao jogo quando o Sousa se isolou para fazer o 2-0.

1998/99: Este tinha que figurar aqui só por um motivo: a exibição memorável do Beto neste jogo - desde este dia que passei a torcer todos os anos para que o Real Madrid não o viesse roubar aos nossos rivais. Vitória por 2-1 com dois excelentes golos do central goleador (nunca soube ao certo se era verdade ou apenas mito urbano o facto do Vale e Azevedo num jogo da selecção ter-se dirigido ao Beto como 'o nosso goleador', mas se o fez, foi sem dúvida o momento mais inspirado da presidência dele), e o Cadete a tentar desesperadamente que lhe atribuíssem o segundo golo. E eu e os meus amigos a rirmos a bandeiras despregadas no Topo Norte.

1999/00: Como poderia faltar este nesta lista? Considero que ir assisitir a este jogo foi talvez a maior expressão de benfiquismo que tive. Penúltima jornada, era a festa do título anunciado, o título que lhes escapava há dezoito anos. E com o prazer adicional de terem o Benfica como cabeçudo. Acho que nunca vi tão poucos benfiquistas em Alvalade. Não sei quantos seríamos no Topo Norte. O massacre começou desde o apito inicial. O Acosta caía perto da área e o árbitro apitava. Logo no primeiro livre a bola foi ao poste. O Acosta continuou a cair, e o árbitro a apitar. Livres para o André Cruz, da esquerda, da direita, do centro. E os lagartos a suspirarem de cada vez que a bola passava ao lado ou morria nas mãos do Enke. Não havia volta a dar-lhe, aquilo era para ficar decidido aquela noite. Mais cedo ou mais tarde o Acosta conseguria arrastar-se até ao interior da área, cair ali, e estava feito. Quem caiu dentro da área adversária foi o Nuno Gomes, mas o convidado de honra para a festa do título, Lucílio Baptista, mandou seguir. Pouco depois é o João Tomás quem cai na área, mas o bom do Lucílio transforma aquilo num livre. Aos 88 minutos, o primeiro do jogo a favor do Benfica, em contraponto aos trinta que foram assinalados para o outro lado. Da outra ponta do estádio vejo o Sabry beijar a bola antes de a ajeitar. E mal ela saiu dos pés do egípcio e o Schmeichel ficou pregado, comecei a gritar golo. Eles foram campeões na semana seguinte, mas caramba, cabeçudos nunca!

2002/03: No ano anterior fomos lá estragar-lhes a festa outra vez, com um golo no Jankauskas e o quadragésimo nono penálti da época a dar-lhes um empate caído do céu. Mas recordo este jogo por ter sido o último disputado no velho Alvalade, e apenas o segundo jogo do Camacho à frente do Benfica. Foi uma superioridade incontestável. O recém descoberto lateral direito Miguel a meter no bolso um miúdo chamado Cristiano Ronaldo e depois outro chamado Ricardo Quaresma. O Tiago, mesmo com o nariz partido, a marcar o segundo golo e a sair para o intervalo enquanto os benfiquistas entoavam o seu nome e ele respondia com uma vénia. Confesso que este jogo me deixa nostálgico por já não ter um Miguel ou um Tiago no meu Benfica (e podem criticá-los à vontade, eu sei que eles não se portaram bem, mas caramba, eles eram umas máquinas a jogar à bola).

2003/04: Ganhámos o último jogo no estádio antigo; ganhámos o primeiro no estádio novo. Os bons hábitos são para se manter. Foi um jogo muito difícil, sobretudo na primeira parte, em que o Moreira brilhou, e muito, segurando o nulo. Na segunda parte, e com as coisas mais calmas, o Camacho de repente lança o Fernando Aguiar e o Geovanni para dentro do campo, e o jogo vira completamente. O Geovanni ameaça uma, duas vezes, e à terceira marca aquela obra de arte, na baliza por detrás da qual eu estava, enquanto eu fico surpreendido ao aperceber-me de quantos benfiquistas estavam no estádio. A imagem mais marcante desse momento foi mesmo o Álvaro Magalhães a sair do banco e a vir para junto da bandeirola de canto, perto dos benfiquistas, a festejar que nem um doido. E claro, há ainda o factor cómico da invasão de campo por parte da Juve Leo a seguir ao golo, e da perseguição à Benny Hill que se seguiu.

2006/07: Foi o ano passado. Quem ganhará: algumas dúvidas? O insuportável Eduardo Barroso a afirmar que nunca se sentiu tão tranquilo antes de um derby. E o calhau do Rocha que nunca marcou um golo na vida, e que no ano anterior até tinha ido para rua. Aquilo eram favas contadas. Trigo limpo, farinha amparo. Logo no primeiro minuto, primeira oportunidade para o Benfica. No canto que se seguiu, tomem lá disto, e o Rocha a marcar. Ainda abananados continuam a ver-nos jogar e mais uma vez têm que levar com a humilhação de verem o seu odiozinho de estimação marcar-lhes um golo. E perto do intervalo o ponto de ruptura: o Miccoli, mesmo ao pé coxinho, manda um estoiro à barra, e eu vejo a lagartagem à minha volta lívida. Tanto esperavam uma goleada e agora estavam a ver é que teriam sorte se não fosse o contrário. Claro que com o fair play típico de quem tem sangue azul, alguns deles começaram a ameaçar fisicamente os benfiquistas presentes. É só classe.

Domingo que vem, é apenas mais um capítulo nesta história de rivalidade. E se por acaso ganharmos, já sabemos o que se segue. A culpa é do árbitro.

Comentários

norte vermelho disse…
muito bom este post
Jorge Ventura disse…
És 1 artista com as palavras...adorei o post ...fez-me reviver a forma como vivíamos as coisas...vivo na Madeira desde 1988 mas nasci em 1964 e vivi em Lisboa os meus primeiros 24 anos de vida e era mesmo assim que eu descreveria os nossos rivais...!!!E já agora um à parte...para quando 1 casa do Benfica na Madeira...é uma vergonha uma região com 300.000 habitantes e com 1.200 sócios do Glorioso pagantes não termos 1 sitio para nos juntarmos...Porque ???
joe disse…
Fantásticop post!

Acrescento apenas uma nota pessoal. Também vivi parte destes dérbies no lumiar mas sempre acompanhado pelo meu sogro que é profundamente lagarto...calculem qual o sabor destas vitórias!!
Seneca disse…
Pois é: entretêm-se as papoilas e os lagartos, mas o Porto, o Grande Porto é que vai ganhando... Essa é que é essa. Podem dissertar o que quiserem, podem chamar-nos nomes, mas os ridículos sois vós. NÓS GANHAMOS, e vós?
D'Arcy disse…
Olha mais um a tocar o 'La Cucaracha' com a buzina do carro :D
João P. disse…
-Sou confesso adepto do sporting, mas sou ainda mais anti-benfica, todos o sabem, não nego, não escondo e tenho muito orgulho de o ser. O meu rival é o Benfica, sao da mesma cidade e isso basta. Alguns reparos, na vitoria com o golo do Sabry, eram 800 os adeptos benfiquistas em Alvalade.

Quantos ás ameaças que falas, digo-te só para telembrares o que aconteceu nesta 2ª feira....triste e ridiculo mas vindo de quem vem não se espera outra coisa.

Se sairmos derrotados, saimos, nao temos por habito usar os arbitros como desculpa ao contrario de outros...

É pena não teres visto os 7-1, porque nós ao menos, não rasgamos nem queimamos os cartoes de socio mas aparenetemente, não foi a única vez que perderam sofrendo 7 golos.

Tudo isto para dizer que as rivalidades existiram, existem e irão existir. Boa Sorte para Domingo e que seja um espectáculo á antiga.

Abraço
"Se sairmos derrotados, saimos, nao temos por habito usar os arbitros como desculpa ao contrario de outros..."

Esta deve ser a piada do ano! Deve mesmo!
D'Arcy disse…
O que aconteceu na 2ª feira aconteceu fora do estádio, aparentemente entre claques. Nunca vi adeptos rivais serem fisicamente ameaçados na Luz quando estão sentados entre os adeptos do Benfica (não digo que nunca aconteceu, digo apenas que nunca vi). Eu o ano passado estava no meio de adeptos 'normais', e ameaçaram-nos quando o Miccoli rematou à barra. Em particular um lingrinhas caixa de óculos, que tinha o típico aspecto do valentão quando está apoiado por 100 tipos, mas que deve levar porrada da irmã mais nova quando chega a casa.

E dizer-se que quando perdem não se desculpam com o árbitro é, sem dúvida, a piada da década.
jose disse…
Nunca vi um lagarto não se desculpar com os árbitros . E intrínseco a eles próprios .
A serio.
Quanto a parte do "sou anti Benfica antes de ser qualquer outra coisa" explica logo a maneira de ser das criaturas
Patrícia disse…
:D que belo post....
campoestrela disse…
Grande post . com direito a cereja em cima do bolo ! grande Gabriel Alves, depois de um dia para esquecer, o que tu me fazes rir. leõezinhos ...MIAU !
norte vermelho disse…
tinha de cá vir um cabeçudo flatulento e um lagarto doutro planeta o lagarto ainda compreendo e tu cabeçudo nao tens o grande derby do porto ate se dao bilhetes a cinco euros senao parece um jogo de distrital berra fdp ke ninguem te passa cartao muito menos as vitorias do fcputas
Empatámos, com sabor a vitória. E lá veio o Paulo Bento dizer que o árbitro e tal... Mas porque é que damos sempre avanço? Espero qe amanhã no sorteio da Taça, nos dêem a hipótese de lhes ganhar!
Pulha Garcia disse…
D'Arcy, quando leio posts como este com descrições tão próximas das minhas próprias memórias dos mesmos factos não posso deixar de me sentir orgulhoso de ser Benfiquista. Um Benfiquista nunca está sozinho no mundo.
jag disse…
Só agora vi este post. Tal com o Pulha Garcia, tb me revejo em grande parte dos teus comentários/histórias. Mas para mim este foi apenas o 18º derby dos últimos 20 anos (também comecei a ir em 88-89 e só falhei o último no estádio antigo e o do ano passado - ahh... nos primeiros anos fui ainda a uns jogos da Taça de Honra da AFL...). E também considero o jogo do Sabry como um dos momentos altos do meu benfiquismo - a humilhação era garantida. Estava certo de que os lagartos iam ser campeões e que nós iamos ser goleados! Mesmo assim, fui. Os benfiquistas eram cerca de 500 num cantinho. Eu estava no meio do topo norte para onde levei uns amigos sportiguistas para eles terem uma alegriazita futebolistíca. No fim choravam eles de tristeza e eu de tanto rir...
ab disse…
não vem ao assunto mas aconteceu ter passado por este 'post', só hoje.
se quiser aceitar o meu testemunho como idóneo confirmo-lhe ser inteiramente verdade o diálogo entre o VeA e o Beto.
não é mito urbano. passou-se no balneário em Paris, na primavera de 99, após um amigável da sn com a holanda.
abraço